A Toscana, na Itália é uma região de pouquíssimos insetos. Pelo menos, no verão. E arrisco dizer que no inverno tem menos ainda. Por questões óbvias de sobrevivência ao frio. Mas sobreviver a 20 crianças tentando te pegar também não é nada fácil!

Semana passada, num momento de roda em classe (em que eu fazia um estágio de observação, na escola pública de Educação Infantil, em Sinalunga), adentrou a sala uma libélula. E como já visto em outros momentos, as crianças mantiveram o comportamento enlouquecedor com o inseto. Como se nunca antes tivessem visto um. Como se aquele ser vivo fosse das coisas mais inóspitas por lá.

Já vi eles sufocarem micro-minhocas no pátio com um copo de plástico. Já vi eles correrem atrás de pequeninas borboletas com as mãos prontas a dar-lhes um belo de um tapa. Ou querendo matar a formiga com o esmagar das mãos. Já vi eles saírem correndo de moscas fazendo aquelas caras de nojo que mais parecem de monstro. E vi pulos e pulos na tentativa de alcançar uma libélula que rapidamente voava pela sala.

Elisa, a professora, tem que pedir calma. “Piano! Piano! È uma libélula”. E Giullio pergunta: “Per cosa è una libellula?”. Rapidamente lembrei dos meus dias em Gênova em que fui visitar meu cunhado João, cursando um Doutorado em Física Quântica com viés matemático. Numa de nossas conversas, pedi que me explicasse, de forma didática, o que estudava/ pesquisava. Terminei de escutá-lo e disse que ia fazer uma pergunta que eu sabia ser burra, mas… perguntei: “e pra quê serve isso?”.

João, na maior paciência, me olhou, sorriu e disse: “Carol, nenhuma pesquisa, nunca, tem por objetivo uma utilidade. Pode ser, que um dia, ela venha a ter, mas o objetivo de quem trabalha com o desenvolvimento de pesquisas é, por princípio, avançar no conhecimento humano”. Pah! Tomei 20 bolachas na cara. Óbvio! Por que querer que tudo tenha uma utilidade? Um serviço. Mania nossa de achar que tudo tem que servir pra algo, senão é descartável. É só olhar em volta e ver o erro total de mundo em que chegamos. Pra quê serve isso?

Segundo o Wikipédia, “A libélula também conhecida como tira-olhos ou libelinha em Portugal e como lavadeira ou jacinta no Brasil, é um inseto alado”. Seu nome é derivado do latim libellulus, diminutivo da palavra liber, que significa “livro”, devido às semelhanças de suas asas com um livro aberto. Páginas de um livro que, ao baterem durante o vôo, mudam de cor.

Uma lenda Xamãnica, diz que a Libélula era um Dragão com escamas coloridas similares as que hoje são suas asas. O Dragão era muito sábio e voava pela noite escura, espargindo luz com seu hálito de fogo. Mas um dia, o Dragão sucumbiu à própria ilusão ao deixar-se enganar pelo ardiloso Coiote, que o convenceu a mudar de forma para provar que possuía de fato poderes mágicos. O Dragão aceitou o desafio adquirindo a forma que tem hoje, de Libélula, mas, ao aceitar este desafio movido pela vaidade, o Dragão perdeu seus poderes mágicos e não pode mais retornar à sua forma primordial. Diz que a libélula é uma criatura do vento e como vive uma vida curta, representa a ideia da vida plena.

Na coleção de fábulas do escritor Rubem Alves, o livro A Libélula e a Tartaruga conta a história de uma tartaruga que procura convencer uma libélula das vantagens de seu jeito “pesado” de viver. Mas a libélula não se dá por convencida e tenta, com-vencer (separado mesmo pra ter sentido etimológico) a tartaruga que o melhor mesmo é a “leveza” de ser dos insetos. Um embate de ideias à beira do lago em que o autor diz ter escrito para crianças, mas o que está nas entrelinhas se dirige aos adultos.

No site da Revista Educação, em setembro de 2011, Rubem Alves diz em entrevista que “a libélula é fragilidade, leveza, capacidade de pairar no ar, de fazer vôos rápidos e inesperados. Libélulas são crianças. Já a tartaruga, pesada, vagarosa, cartesiana, sem dúvidas, confiável – é símbolo do adulto maduro”. E o que é um adulto maduro? “A maturidade é um estado da mente que se acomodou, que está em paz com as coisas do jeito como elas são, que abandonou os sonhos mais loucos de aventura e realização. Não é difícil perceber que essa noção de maturidade é funcional na medida em que ela dá ao indivíduo uma racionalização por ter encolhido os seus horizontes”, escrever Peter Berger, sociólogo e teólogo austríaco.

E viva a pesquisa científica que nos tira desse “estado de mente que se acomodou”. E viva o doutorado do João que não abandonou os “sonhos mais loucos” para nos fazer entender que nenhuma maturidade precisa ser funcional.

E pra quê serve a libélula? Longe de ser apenas um inseto que come outros insetos e que equilibra a cadeia, a libélula serve pra encantar as crianças, pra provocar nelas, perguntas. Porque “libélulas são crianças”. Libélulas que servem pra ser lenda. Servem pra ser conto e metáfora. Servem pra gente des-achar que tudo tem de servir a algo ou a alguém. Libélulas servem pra adentrar voando a sala de aula e fazer com que as crianças pulem frente a um momento em que pedia que estivessem sentadas. Libélulas servem para nos provocar. Como as perguntas sem respostas exatas. Como a física quântica. Para que um dia, as abstrações possam ser mais úteis que as respostas exatas.