Sabe aquele exercício de olhar o copo com água e dizer se ele está mais pra cheio ou vazio? Quando sai o resultado de uma pesquisa é a mesma coisa. A maioria escolhe a menor amostra pra fazer manchete (chama mais atenção), e poucos escolhem a maior amostra pra falar. É o caso aqui deste artigo. Porque o melhor resultado dessa pesquisa é poder ter a certeza de que estamos no caminho certo. Estamos diante de uma geração que vai mudar o mundo. E não é utopia, não.

 

A empresa de pesquisa de mercado Officina Sophia soltou a primeira parte de um estudo chamado A Voz das Crianças, em que entrevistou mil crianças, na faixa etária de 7 a 12 anos, entre meninos e meninas, e todas acompanhadas de um adulto responsável. O estudo foi feito em toda a extensão do Brasil, sem deixar escapar áreas do Norte, que acabam, muitas vezes, “esquecidas”.

 

Num primeiro momento, o estudo detalha a estrutura familiar e a vida dessas crianças, e depois ele entra em temas específicos. Interessante observar que ainda é a mãe quem segura a casa. 63% trabalham fora contra 49% dos homens. Isso explica o dado do IBGE que saiu recentemente e que mostra um aumento de 27% no papel das mulheres como chefe de família. 94% das crianças moram com a mãe, e 54% que têm o pai junto. E da gestão familiar à economia, nasce a relação com o dinheiro dessa criançada. Sim, dinheiro aqui é um dos temas mais relevantes.

 

Mas não porque o estudo mostra que 14% acham o dinheiro a coisa mais importante do mundo, mas porque 76% responderam que dinheiro é importante, mas que existem outras coisas MAIS importantes ainda. 69% delas, orientadas pelos pais, aprendem não só a usar e guardar o dinheiro de mesada que recebem, mas que dinheiro não é tudo na vida. Aprendem também com a própria vida. Com o que enxergam lá fora da janela do carro. Um outro mundo que precisa de um olhar mais atento, de carinho e desenvolvimento. 74% respondem que o dinheiro serve pra ajudar a família. 23% dizem que serve pra ajudar os amigos.

 

E é impressionante a resposta do que eles fariam com o dinheiro caso ganhassem na loteria. 85% diz que ajudariam a família. Ou seja, estamos falando com crianças que sabem o valor e a importância da família na vida delas. Sabem que mãe, pai, avó, tia, irmãos, ou seja, quem for, estão sempre ali. É quem “sacrifica” a vida em nome do futuro deles e, se puderem retribuir, irão fazê-lo logo de primeira.

 

E se fossem doar o seu dinheiro, pra quem doariam? 56% respondem que doariam para cuidar de crianças carentes, 46% cuidariam dos animais e 36% cuidariam dos idosos. 52% doariam para cuidados com meio ambiente, como preservação do mar, da natureza e do ar. Essa geração já sabe que, se não cuidarmos do meio ambiente, não teremos onde viver. Nem onde, nem quando. E, se não cuidarmos de quem precisa mais que nós, não teremos o mínimo de igualdade social. Teremos menos violência, menos preconceito, menos brigas, menos desamores.

 

E o que eles fazem pra garantir esse meio de vida sustentável enquanto não têm dinheiro pra doar a essas áreas? Essas crianças se educam e tentam educar quem está a seu redor. 69% jogam lixo no lixo; 65% procuram lixeiras recicláveis para fazer o descarte (mas têm muita dificuldade ainda em associar as cores aos materiais); 67% escovam os dentes de torneira fechada; 57% economizam energia elétrica; 39% têm costume de cuidar das plantas; 58% não desperdiçam comida. 33% leem embalagens de alimentos pra saber o que tem. 51% arrumam a própria cama e 45% o quarto.

 

Perguntados se fossem zelador ou síndico do bairro o que fariam?, 75% respondem que trabalhariam por melhorias, sendo 71% delas para conscientização do bairro. Quando perguntados sobre amigos e diferenças sociais e de raça, 91% respondem, enfaticamente, que não têm problema algum em lidar com diferenças e que têm amigos de cor de pele diferente da sua. 90% gostam de ajudar o outro e 86% dizem que não gostam de brigar nem xingar os outros.

 

A pesquisa se estende. Mais perguntas e mais respostas animadoras. Promissoras. Só mostra pra gente que está tudo aí. Basta essas crianças serem incentivadas, e elogiadas, pelos adultos que as cercam para que continuem pensando e agindo em prol do que é melhor. Ao outro, à natureza e aos animais. Crianças que vivem internamente o senso de humanidade. De construir uma unidade comum, em sociedade. Querem estar sempre cercados de família ou amigos e sabem a importância que isso tem na vida, e nos corações. Sabem que se não cuidarem da natureza não terão ar para respirar nem água pra beber. Mas se importam primeiro com as plantas e os cuidados de que elas precisam, pra depois pensarem nos benefícios que vão tirar disso. Construindo um mundo que gira em torno do ecoísmo e não do egoísmo. Porque pensam de forma humana, em sociedade. Em comunidade.