Em maio, fui assistir uma palestra na Sociedade Antroposófica cujo tema me chamou atenção e é o título deste texto – A família atual. Coordenada pelo médico Derblai Sebben, a ideia era convidar alguns profissionais e cada um trazer um pouco do olhar de sua especificidade. Entre eles estavam o professor Irceu Munhoz, ensino fundamental da escola Rudolf Steiner, a professora de jardim, Glauce Kalisch, mesma escola e a terapeuta dra Sandra Stirbulov.

A palestra começou com uma imagem muito bonita, e interessante, trazida pelo professor Irceu. Uma forma de olharmos a família atual sem conceitos pré-concebidos ou pré-conceitos do que ela seria. “Independente do formato, ela é viva”, traz sua fala. “Ali floresce a humanidade”. É da família que se brota o novo ser e de diferentes formas já que precisamos olhar a família inserida no tempo e na cultura. Única forma de olharmos as diferenças com respeito e gentileza.

E está no papel do adulto trazer esse sentido à criança, entre outros que envolvem educação, relações, mundo e natureza. Porque é na figura do adulto que a criança confia para ser cuidada. Quase que como uma lei natural da humanidade. E pelo olhar da antroposofia, a criança vai colhendo olhares sobre os pais e seus educadores que ajudam a formar o seu mundo lá na frente.

Na 1ª infância, o adulto tem que ser digno de ser imitado. É esta imitação que vai garantir a criança a exercer a liberdade no futuro. No 2º setênio, o adulto é quem conduz a criança pelo mundo via a figura de autoridade amada. O que vai trazer a ela, o senso de igualdade lá na frente. No 3º, já na adolescência, é quando o jovem quer e precisa se impor, mas precisa de um norte seguro. “E não é do adulto amigo que ele precisa e sim do adulto a ser admirado”, explica Irceu. “E a admiração é fundamental para ele exercer a fraternidade no futuro”, completa.

Essas contribuições pedagógicas que o Steiner fez nos dá pistas e condições de educar com mais certeza. Não que não iremos errar, longe disso. Mas quando sabemos, minimamente, o que se espera de nós, podemos nos preparar para corresponder. E temos ainda o desafio de trazer nosso aprendizado nessa jornada e neste tempo atual. Onde a criança está no centro das relações familiares. E este é nosso tempo. “Quando você pergunta a uma família porque ela trabalha tanto, a resposta é ‘para dar o melhor a meu filho’”, exemplifica a dra Sandra. “Isso faz a gente pensar, e repensar, em quais papeis devem ser resgatados pela família e quais devem ser mantidos”, fala. E para isso, é preciso criar tempo e espaço para viver a família hoje. Família é um órgão vivo. E que precisa da pulsação para acontecer.

Dizem que na vida a gente precisa de 20 anos para aprender (quando os pais educam); 20 anos para lutar (nossa auto-educação); e 20 anos para sabedoria (quando a gente pode transformar a vivência). Com isso a gente desenvolve a moral, a ética e o caráter. Por isso, somos seres humanos. Palavra em tempo correto no inglês que nos refere a human being – seres em constante formação.

Só a partir da contração e da expansão é que seremos capazes criar e cuidar de nossos filhos para que se tornem seres humanos. Com qualidades humanas e espirituais, capazes de pensar e sentir. De ver e imaginar. Como as enormes telas da artista sueca Hilma Klint que estonteantemente pintou as fases da vida vista – e sentida – em outra dimensão não tão concreta como esse mundão aqui. Ela nos deu à luz de algo muito maior sobre a humanidade em sua obra. Assim como a criança exerce o mesmo papel ao nascer. Uma mãe que dá a luz, traz a Terra um ser iluminado que nos proporciona um novo olhar sobre o mundo e a vida. A uma nova família que se torna, e que se forma.