Hoje eles me perguntaram se eu estaria aqui ano que vem. Disse que não. Que volto ao Brasil quando as férias deles começarem. Faltam mais 15 dias.

Cheguei à Sinalunga dia 2 de junho, num daqueles típicos domingos nostálgicos em qualquer canto do planeta. Em frente ao apartamento que eu ficaria, uma feirinha de rua com quinquilharias a venda e mesinhas onde alguns tomavam café, outros, sorvete. Eu tinha 30 dias pela frente, naquilo que parecia ser puro marasmo de domingo.

Mas segunda feira amanheceu e procurei descobrir onde era a escola. “Scuola Elementari o di Bambini?”. Bambini. Minha procura era pela Educação Infantil, mas o ônibus escolar que eu seguia na rua me levou ao Ensino Médio.

Muito simpático, Domenico, me atendeu na secretaria e logo pôs-se pronto a me entender e ajudar. “Aspetta!”, me disse. E lá foi ele buscar a professora de inglês pra mediar a conversa. Não demorou muito e logo a Diretora se aproximou. Pegou na mão a carta de recomendação que eu levara. Olhou, olhou e me disse que precisaríamos firmar um contrato. Corro eu com o Singularidades, de quem tive uma prontidão imensa em me ajudar.

Muita conversa, muita simpatia, muita tentativa de um italiano que nem existia na minha vida e deu certo. Domenico me escreve dizendo que estava tudo ok e que eu poderia começar o estágio 2f.

Sinalunga, a pequena comuna de 12mil habitantes, na região da Toscana, Itália, tinha se transformado completamente pra mim naquele momento. Abriu-se uma possibilidade gigantesca de vida. Era a experiência de ser professora numa escola italiana. Daquelas que a gente só vive quando é capaz de ir atrás. De tentar. De não perder a chance. De não deixar que a vida tenha cheiro de marasmo de domingo.

De repente me vi na frente de quase 100 crianças sendo apresentada pela coordenadora da escola como a Maestra (como as professoras de Educação Infantil são chamadas aqui) brasileira. E falando meia dúzia de palavras em italiano, os olhos curiosos de perguntas me davam boas-vindas. Deu frio na barriga “do que eu to fazendo aqui”, deu medo de não entender nada, mas deu também coragem.

E de cada dia que já se passou, todos, eu sai da escola com uma história nova pra contar e um sorriso imenso na alma. Não teve uma pessoa, entre professoras, ajudantes e crianças, que não me abriu um sorriso e não fez-se pronta em me ajudar.

O Walid que logo quis que eu falasse do futebol pra ele; a Maya que me pega para brincar de mamãe e filha e quer meu colo na roda. A Sofia, Giulia, Thia e Mansserat que me ensinam um dicionário de palavras em italiano e fazem questão de me perguntar, todo dia, se está tudo bem e se preciso de ajuda. O Max, Daniel, Giullio e o Samuele que me pedem ajuda com as atividades da escola e quando me dou conta estou lendo enunciados de lógica e explicando o que devem fazer – tutti in italiano. “Maestra Carolina, come faccio questo?“

Tem a Maria das Graças, uma napolitana típica dos esteriótipos que a gente faz. Daquelas que grita e gesticula até com as orelhas. Ela vive mandando eu prender o cabelo pra não pegar piolho. A Ester e a Carolina que todo dia deixam de tomar um café para me dar a cápsula delas (em escola pública tudo tem a conta certa). Ou a Elisa, coordenadora, que faz questão de me explicar cada uma das atividades e me coloca na roda como se eu estivesse ali há anos.

A experiência de ser professora na Itália me deu grandeza. E a possibilidade de entender daquilo que ainda pouco sei. Entendi que crianças são crianças. Entendi que em todo conceito de pedagogia existe algo maior que o permeia que são os valores daquela cultura. E que antes da gente criticar, é preciso alargar o olhar. Porque entendi que nos berros das italianas tem carinho e que nos castigos às crianças têm uma preocupação em educar, em fazer-lhes entender algo sobre disciplina. Algo que está na cultura.

Entendi que pra falar italiano basta abrir o peito e se dispor corajosa. Entendi que quando eu sento no chão com criança, eu não estou em nenhum outro lugar a não ser ali. Entendi que eu gosto de um abraço apertado mesmo que eu corra o risco de pegar piolho. Entendi que esse pode ser um caminho e que a vida foi grandiosa em me proporcionar algo que poucos têm. Ela tem sido generosa comigo. Talvez esteja aí a construção do olhar sobre a vida.