Escolas têm se adaptado as necessidades da vida de forma contínua e têm se visto frente a mudanças ainda maiores durante a pandemia. Saiba quais são os 9 desafios

Não é de hoje que a Educação brasileira precisa se repensar, se reinventar. Quantas coisas não fazem mais sentido existir dentro de uma escola e quantas outras são mais que urgentes de serem levadas à sala de aula. A vida que crianças e adolescentes vivem do lado de fora das escolas precisa existir lá dentro. Professores e educadores precisam, pra ontem, olhar a vida e fazer conexões entre disciplinas e conteúdos. A matemática e a língua portuguesa precisam ser maiores que a simples necessidade de uma nota boa no ENEM. Junte a esta crise, a pandemia do COVID-19 e os desafios que a Educação Básica brasileira está enfrentando pra pensar em futuro.

Começamos 2020 com um desafio que era o de iniciar a implementação das mudanças que pede a nova Base Nacional Curricular Comum. O desafio já era grande o suficiente para 99% das escolas brasileiras que vivem com suas diversidades e dificuldades tão singulares, neste país. Não bastasse, adicionamos uma pandemia e os contratempos que vieram junto dela.

“Costumávamos dizer que tínhamos uma escola do século XIX, um professor do século XX e um aluno do século XXI”, fala Renato Casagrande, consultor em Educação, Gestão e Liderança no Ambiente Educacional. E frente a pandemia, as escolas se mobilizaram rapidamente e, eu diria, já se transformaram. Impossível se adaptar a tantas mudanças e não se reinventar. Ainda que este processo seja inconsciente, certamente, acelerou o embrião de algo a nascer.

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E quais são os desafios da Educação Básica brasileira em tempos de Covid-19? Renato Casagrande conversa com o Estadão sobre alguns deles.

Renato Casagrande em palestra sobre educação

Renato Casagrande em palestra sobre educação

O formato da escola digital trouxe as famílias pra bem perto do contexto escolar. O que se observa desta relação?
Casagrande: “Muitos pais estão surpresos com o comportamento positivo ou negativo dos seus filhos, assim como estão surpresos com o trabalho desenvolvido pelos professores, gestores e escolas. Sentimos que os pais estão valorizando muito mais esses papéis. Isso não significa que não haja críticas, muito pelo contrário. Conforme os pais vão participando mais, as críticas se tornam naturais e são elas que estão ajudando os professores e gestores a encontrarem caminhos que venham ao encontro de muitas expectativas e que sejam, minimamente, satisfatórias no que tange à aprendizagem dos alunos”.

Quais contribuições já podem ser vistas de forma positiva pelas escolas?
Casagrande: “Os professores começaram a perceber as contribuições fantásticas que as tecnologias podem oferecer à educação, assim como faz há tempos em outros setores da sociedade. Entre tantas possibilidades, utilizam os motores de buscas inteligentes, a partir de comandos verbais que utilizam a comunicação natural e a tradução multilingual simultânea. Utilizam em suas aulas textos com hyperlink que têm permitido a qualquer momento que seus alunos se desloquem para lugares ou para o contato com informações diversas. As aulas se tornaram mais atraentes. Muitos professores e alunos estão trabalhando de forma satisfatória com o uso de recursos tecnológicos em substituição às tradicionais salas de aula”.

O que isso significa para os professores?
Casagrande: “O professor está num processo de quebra de paradigmas, de redução de estigmas e preconceitos e passando a encarar uma nova forma de ensinar, não mais centrada na sala de aula e nem nos métodos de ensino até então utilizados com relativo sucesso. Aquilo que era proclamado já em estudos de um ensino mais personalizado, em que o aluno se torna protagonista do seu processo de aprendizagem, encontra nesse momento um espaço de desenvolvimento. Os professores precisam começar a entender que o momento atual, e o que se antevê, exigem muito mais de aula que o fato de ser síncrona (ao vivo) ou assíncrona (atividades não ao vivo). A educação não presencial permite explorar múltiplas possibilidades de ensino”.

E que mudanças pode-se observar nos alunos?
Casagrande: “O papel do aluno de sujeito passivo para sujeito ativo, visto que um dos modelos de aula não presencial mais bem sucedido é aquele que tem combinado atividades dos professores ao vivo, aulas gravadas, indicações de vídeos, textos, músicas e outros recursos e o desenvolvimento por parte de alunos de projetos, inclusive de forma cooperada com outros colegas por meio, e com o auxílio, das novas tecnologias de comunicação. Essa mudança vai ao encontro de estudos realizados pelo pesquisador Scott Freeman e um grupo de colegas professores da Universidade de Washington, que revelaram que abordagens de ensino que transformam os alunos em participantes ativos, em vez de apenas ouvintes, reduzem consideravelmente as taxas de reprovação em função de uma aprendizagem mais efetiva”.

O que pode ser um “novo momento” para as escolas?
Casagrande: “Diferentemente do que alguns educadores e até pais pensavam, o ensino remoto ou as atividades a distância na Educação Básica não serão tão breves e nem se trata de modismo. A educação não presencial deverá perdurar por um período considerável e a educação mediada por tecnologias, como as que estamos presenciando neste momento, deverão se fazer presentes nas escolas e nas aulas a partir de agora, independentemente da pandemia e da crise da Covid-19. O que sabemos de antemão nos leva a um terceiro momento, que é a convivência com o ensino híbrido. Essa parece ser uma tendência inevitável”.

O que deve perdurar com a volta presencial dos alunos, às escolas?
Casagrande: “Todas essas mudanças vividas nas fases anteriores terão nos transformado. Será impossível voltarmos ao ponto de partida. Alunos, pais e professores estarão vivendo e acostumados a uma nova realidade, a do ensino mediado por tecnologias. Entraremos nessa fase ávidos e ansiosos pelo contato pessoal, pelas relações humanas, pelos abraços, pelas rotinas presenciais. No entanto, não deixaremos de lado nossos aliados em todas aquelas difíceis fases vividas. Já teremos aprendido que é possível e eficaz utilizar recursos tecnológicos disponíveis na atualidade”.

E isso exige algo dos professores e das instituições escolares?
Casagrande: “Grandes demandas se voltam para a formação dos professores. É preciso que os sistemas e as redes responsáveis deem ênfase a três aspectos, que se colocam neste momento como prioritários: o primeiro está associado ao uso das tecnologias. É preciso ensinar o professor, de fato, desenvolver novas metodologias de ensino. Muitos dos desafios anteriormente pontuados são minimizados quando há a implantação de uma metodologia adequada de ensino remoto ou ensino híbrido”.

“O segundo aspecto a ser considerado se refere à avaliação da aprendizagem. Num processo de ensino remoto ou híbrido, essa avaliação torna-se muito mais difícil. Por mais que adotemos jogos, quizzes e outras estratégias de avaliação disponíveis em plataformas na internet sabemos que nada se compara à observação direta do professor em sala de aula ao longo de um período letivo. O contato com o aluno, o fazer pedagógico do dia a dia do professor é ainda o método mais eficaz de avaliação da aprendizagem”.

“O terceiro e último aspecto se refere às questões socioemocionias. Se antes já precisávamos nos dedicar a elas, agora isso se torna imprescindível. Questões como cativar, motivar, garantir a resiliência dos alunos são básicas para um programa de formação que esteja atrelado à nova realidade da escola. Se já falávamos no desenvolvimento de competências socioemocionais, agora, com o advento de toda essa crise vivida, o professor precisa ter capacidade para lidar com essas competências em um ambiente de peso histórico”.