Mas por acaso você sabe o que é a pedagogia waldorf? Conheça como pensa e o que diz a pedagogia que é apontada pela UNESCO como capaz de responder aos desafios educacionais dos nossos tempos

Poucas pessoas sabem o que é a Pedagogia Waldorf. Poucas mesmo. Até para quem está cursando pedagogia em Faculdades pouco se ouve. A bem dizer que os laços entre a Academia e a Antroposofia (a base da pedagogia) nunca foram feitos, mas ainda assim, Rudolf Steiner deveria figurar na listinha de educadores que todo pedagogo precisa olhar durante sua formação. O fato é que pouco se fala e nada se olha, mas no ano em que a Pedagogia Waldorf completa 100 anos, os holofotes se voltam a um lugar ainda tão pouco conhecido, mas cheio de possíveis respostas quando a gente pensa em sentidos e valores ao educar crianças e adolescentes, nos tempos de hoje.

Visão geral pátio escola Rudolf Steiner

Vamos lá. Talvez você já tenha ouvido alguns clássicos sobre a pedagogia waldorf. Como de que as crianças aprendem alemão e tocam instrumentos de cordas, como violoncelo e violino. São alfabetizadas apenas com sete anos e nenhum professor usa livro didático ou caderno pautado. As crianças trocam o lápis pela caneta tinteiro inicialmente, só pintam com aquarela e usam mochilas de couro que foram feitas por seus pais. Os alunos não levam bolachas recheadas, doces e trash food nas lancheiras. Suco de caixinha nem pensar! Pães, só integrais. Os mais velhos, já no Ensino Médio, levam marmitas no almoço. Porque comida saudável vem de casa.

Crianças de jardim lavam os grãos para cozinhar o lanche

No pátio, brincam de brincadeiras tradicionais. Parece coisa de cidade do interior. Crianças do quinto e sextos anos ainda jogam taco no recreio e brincam de pega-pega, por exemplo. A arquitetura das escolas propicia o brincar de corda, casinha, perna de pau, entre outras coisas que as crianças inventam. Tem árvores, troncos, terra, muito verde e pedrinhas no chão. Pouco concreto. Poucos limites que não venham do próprio corpo. Um lugar que foi pensado levando em conta o livre brincar e que coloca pequenos desafios de autonomia e desenvolvimento corpóreo a favor do autoconhecimento.

Ah! Os celulares? Sim, são proibidos até chegarem ao final do Fundamental II (vejam a França proibindo o uso nas escolas até os 15 anos). A história de que não pode ter televisão em casa é mito. Não acreditem. A pedagogia que parece, aos olhos leigos, um bicho de sete cabeças, está longe dos monstros que habitam as páginas dos contos de fada. Ainda que a pedagogia tenha alimentado algumas narrativas literárias. Harry Potter, por exemplo. Em A Pedra Filosofal, em que alunos do 12ª. recebem os que chegam à escola, logo em uma das primeiras cenas na escola. O mesmo acontece com as crianças de 1ª waldorf que são recebidas pelos alunos mais velhos da escola num rito de passagem pra lá de simbólico.

Simbologia, aliás, é um ponto da pedagogia. Imagens, narrativas, jogos e encenações são recursos simbólicos usados para colocar o aluno em contato com os conteúdos que devem ser trabalhados na escola. Poucas coisas são ditas de forma objetiva e explicita. Pelo menos até eles chegarem ao Fundamental II. Porque acredita-se que é o emocional forte e sólido que contribui para o desenvolvimento do intelecto e suas aptidões. O que isso quer dizer?

Que o que vai ser ensinado está diretamente ligado as necessidades corpóreas e anímicas da criança e do adolescente. Quer um exemplo? Quando a criança começa a se questionar sobre sua origem e a existência no mundo, o curriculum waldorf apresenta “a criação do mundo” como alimento simbólico às suas perguntas. No quarto ano, as crianças têm mitologia nórdica para poder alimentar os questionamentos para a passagem pelo Rubicão – ou, como chamamos, a pré-adolescência.

Sala de 5o. durante aula

E sem muito perceber, a criança vai preenchendo sua alma de autoconhecimento e respostas de mundo. Os conteúdos dão suporte a isso que é maior, porque é ser humano. E o que esperar dessas crianças no futuro? Seres humanos mais empáticos, diversos, sensíveis. Que tem, muitas vezes, a arte como resposta. São profundos e filosóficos e possuem um autoconhecimento gigantesco. Porque aprenderam, desde pequenos, a lidar com desejos e limites.

O simples subir em uma árvore exige que a criança faça escolhas, como o galho em que vai pisar, onde pode apoiar o corpo e qual galho a sustenta. E como toda escolha, elas têm consequência. Assim é na infância, assim é na vida. Como um jogo simbólico de quem testa o conhecimento do peso do próprio corpo, o quanto a perna é capaz de esticar para dar o próximo passo ou qual a força que seu braço sustenta para continuar a subir. Pra tudo isso é preciso de consciência e autoconhecimento. De limites e desejos. Isso é o educar para a liberdade. Liberdade de escolhas e vontades. Liberdade em saber onde começa seu espaço e onde é o do amigo.

São 100 anos de pedagogia. São 100 anos de uma proposta que nasceu no pós-guerra e que tem muito o que comemorar. Florencia Guglielmo, Graduada em Terapia Ocupacional pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, coordena a área de Apoio Pedagógico da Escola Waldorf Rudolf Steiner e trabalha como docente nos cursos de graduação em pedagogia e pós-graduação em pedagogia waldorf da Faculdade Rudolf Steiner, fala com a gente sobre a antroposofia e a pedagogia.

Por que comemorar os 100 anos da pedagogia waldorf?
A data é um importante marco no movimento pedagógico Waldorf. Por um lado permite olhar para o que já foi conquistado, por exemplo, em termos de expansão do número de escolas ao redor do mundo, do estabelecimento de cursos de formação de professores, da divulgação de sua proposta pedagógica. Por outro, nos convida a refletir sobre quais são os desafios atuais enfrentados pela infância contemporânea, como uma proposta pedagógica com tantos anos de experiência pode corresponder a esses desafios mantendo a conexão com seus fundamentos, e, ao mesmo tempo, sem se deixar engessar pela tradição.

Qual compreensão de ser humano tem a pedagogia waldorf?
A pedagogia Waldorf considera que os alunos devem ser vistos de maneira integral, abarcando não apenas o aspecto cognitivo, mas o desenvolvimento corporal, afetivo, social e a capacidade de atuação da criança. Todos esses aspectos devem ser abarcados pelas atividades desenvolvidas na escola. Desse ponto de vista, a pedagogia Waldorf caminha na contramão de uma especialização precoce e se propõe a ajudar a formar crianças e jovens capazes de escolher seu próprio caminho na vida com autonomia.

Por que a antroposofia olha os ciclos do ser humano de 7 em 7 anos?
Rudolf Steiner, o fundador da pedagogia Waldorf, descreve ciclos de desenvolvimento da criança que se estendem ao longo de 7 anos, aproximadamente, chamados de setênios. Esses períodos guardam diferenças qualitativas entre si no que diz respeito às capacidades cognitivas, afetivas e sociais das crianças e jovens. A compreensão dessas características é importantíssima para a adequação da proposta pedagógica Waldorf às necessidades das crianças e jovens. Quando essas necessidades são contempladas pela escola e pela família, a criança consegue experimentar as atividades oferecidas na escola como desafios interessantes, que promovem seu crescimento sem atropelá-las.

Tem-se o mesmo professor de 1º. A 8º. Por que?
O professor de classe acompanha as salas de ensino fundamental desde o 1º até o 8º ano. Em função desse longo período, tem a oportunidade de estabelecer uma relação muito estreita com os alunos e famílias, de acompanhar o desenvolvimento das crianças ano a ano, procurando as melhores ações para seus alunos, individualmente e como grupo. Como ele também centraliza o ensino das principais disciplinas, português, matemática, história, geografia, etc., consegue relacioná-las entre si. Isso pode ocorrer nos conteúdos ministrados no mesmo ano letivo, como entre conteúdos e vivências que seus alunos tiveram em anos anteriores.

A pedagogia tem uma crença espiritual muito forte. Como é isso na prática?
O fundamento da pedagogia Waldorf é o conhecimento do ser humano segundo a visão de Rudolf Steiner, a Antroposofia. Para ele o ser humano possui um corpo físico, a alma e uma dimensão espiritual. Esse conteúdo é objeto de estudo dos professores Waldorf, porém não é ministrado nas escolas. Nesse sentido, as escolas Waldorf não são confessionais. Existe um currículo de ensino religioso, onde são cultivados valores humanos e também cristãos, mas não de maneira dogmática.

A gente sabe que é importante as famílias se encontrarem dentro dos valores de uma escola. Pra quem é a escola waldorf?
Para todos aqueles que compartilhem seus valores humanos.

Como sai um adolescente da pedagogia? O que pode-se esperar desse jovem no mundo?
A maneira como cada jovem vai elaborar internamente as vivências e conteúdos recebidos na escola é muito particular. Observamos que, de maneira geral, os jovens que saem da escola são abertos, criativos e possuem muita iniciativa. Esse é um retorno positivo que a escola tem recebido de empresas na quais os jovens fazem estágio durante o Ensino Médio. Os vínculos de amizade, que se formam ao longo dos anos na escola, também duram muito tempo e se mantêm mesmo depois da saída da escola.