Hoje estamos publicando o terceiro artigo da Série “Cannabis na gravidez e no pós-parto” e abordaremos as consequências do uso de Cannabis para as gestantes e puerpéras, além dos possíveis efeitos nocivos no feto, recém nascido e ao longo da vida de filhos de mulheres que fumaram maconha na gravidez.

Consequências do uso de cannabis para a gestante e puérpera

Diante do  aumento  do  consumo de cannabis pelas mulheres, há maiores chances de os profissionais da saúde se depararem com gestações expostas a essa substância e com os consequentes prejuízos para a mãe, o feto e o desenvolvimento do bebê. No entanto, verifica-se um despreparo de algumas equipes de saúde para lidarem com essa  questão.  Um  estudo  conduzido  na  França, revelou a necessidade de preparar os profissionais para a identificação precoce do uso de cannabis  e  de  seus  efeitos para mãe, feto e bebê. Os autores verificaram que apenas metade dos ginecologistas, obstetras, doulas e clínicos gerais perguntavam às gestantes sobre seu consumo de drogas, e a maioria não se sentia informada o suficiente sobre os riscos desse consumo no período, sendo que os profissionais que trabalhavam no momento do parto  apresentavam  melhor  percepção  dos riscos desse consumo.

Diante da  interrupção  do  consumo  de cannabis antes, durante ou após a gestação, é importante que o profissional prepare a mulher para o possível surgimento de  sintomas  da síndrome  de  abstinência:  fraqueza, hipersonia, retardo psicomotor, ansiedade, inquietação, depressão, insônia. Em geral, os sintomas aparecem 24 horas após a cessação e atingem maior intensidade entre 2 e 3 dias.

Destaca-se  que  o  uso  agudo  da cannabis  durante  a  gravidez  pode  levar  a  descarga  simpática,  com taquicardia,  congestão  conjuntiva  e  ansiedade;  além disso,  pode  potencializar  a  ação  de  anestésicos  no sistema  cardiovascular  e  agir  como  depressora  do sistema nervoso central.

 Efeitos no feto, recém-nascido e ao longo da vIda

Pesquisas demonstraram que o consumo de cannabis pode influenciar o desenvolvimento fetal. Para se avaliar o risco de impactos, leva-se em consideração o tempo de exposição, a dose, a via de administração, o uso de outras drogas e outros fatores sociais e genéticos.

A  restrição  do  crescimento  fetal  é  considerada  a maior complicação nesse cenário.  Por ser  altamente  lipossolúvel, o tetraidrocanabinol (THC) principal componente psicoativo da maconha atravessa a barreira da placenta e prejudica o crescimento do feto, causando retardo   no   desenvolvimento   do   sistema   nervoso,   distúrbios   neurocomportamentais,   más-formações congênitas,  prejuízos  no  sistema  cardiovascular  e  no sistema gastrointestinal.

O prejuízo no desenvolvimento neurológico do feto gera alterações comportamentais no recém-nascido, sendo que os seguintes sintomas podem ser observados: maior inquietude, desatenção, estresse, menor sensibilidade a estímulos externos, mais choro, maior dificuldade para ser acalmado em crises de choro, sono conturbado, com dificuldade para acordar, mais tremores e movimentos bruscos.   Ainda   que   esses   sintomas   possam   ser   sutis e não ser detectados pelos pais, os profissionais da saúde devem investigá-los e realizar as intervenções necessárias. Estudo Canadense recente de 2020 realizado na Universidade de Ottawa, constatou que o risco de autismo duplica em filhos de mulheres que usaram cannabis na gravidez. Tendo em vista o futuro da criança, há perspectivas de  melhora  desses  danos  iniciais,  uma  vez  que  o desenvolvimento do cérebro é influenciado pelo meio e outros fatores biológicos. Sendo assim, a forma como esses bebês são criados é também determinante, especialmente com relação a afeto, estimulação, atenção e cuidado. Mas para que correr riscos?

Portanto, o uso de cannabis na gravidez é subestimado e negligenciado. O principal componente psicoativo da maconha, o THC, pode levar a danos no desenvolvimento fetal que implicam em atrasos de desenvolvimento que podem ser temporários ou permanentes uma vez que o desenvolvimento cerebral é influenciado por fatores biológicos e ambientais. De qualquer forma os profissionais de saúde precisam estar melhor preparados para a abordagem correta das possíveis gestantes que continuam fumando maconha na gravidez a fim de prevenir danos futuros até irreversíveis ao filho gerado.

Finalizaremos essa série importante no próximo artigo falando sobre a abordagem terapêutica correta dessas mulheres grávidas  usuárias de cannabis

Fonte:

Artigo de Revisão da Revista Debates em Psiquiatria da ABP

EFEITOS DO CONSUMO DE CANNABIS NA GRAVIDEZ E NO PERÍODO PÓS-PARTO

EFFECTS OF CANNABIS CONSUMPTION DURING PREGNANCY AND IN THE POSTPARTUM PERIOD

Autores: Hewdy Lobo Ribeiro; Joel Rennó Jr; Renata Demarque; Juliana Pires Cavalsan; Renan Rocha; Amaury Cantilino; Jerônimo Ribeiro; Gislene Valadares; Antonio Geraldo da Silva