“Fui diagnosticado como portador de (THB) mas verdadeiramente eu sinto apenas um estado de bem-estar constante sem a presença de episódios depressivos”  Resposta: O atual modelo categorial (por categorías de síntomas dos transtornos mentais) da Classificação Psiquiátrica foi instituído nos EUA na década de 1950.

A conhecida “Bíblia da Psiquiatria”, o DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais) da Associação Psiquiátrica Americana (APA) começou em 1952 com 108 categorias. Já em 1994, o DSM IV foi publicado listando 297 diagnósticos em 886 páginas.

Embora seja um modelo válido e muito utilizado por todo o mundo da psiquiatria, tal Manual Diagnóstico de Psiquiatria vem sendo questionado por suas versões recentes devido ao rigor excessivo do diagnóstico. Outro modelo de classificação pode ser mais preciso em algumas doenças mentais ao avaliarem a dimensão ou o espectro dos transtornos mentais.

Pelo modelo atual do recém-lançado DSM V, há um capítulo separado para o Transtorno Bipolar, havendo vários especificadores como desvio de conduta, aflição ou angústia, incapacitação e perigo ou risco, os conhecidos 4 “Ds” em inglês: Deviance, Distress, Disability e Danger.

Na atualidade, temos várias pesquisas sobre possíveis marcadores biológicos do transtorno bipolar (como os mediadores inflamatórios entre outros), porém tais marcadores biológicos não foram incluídos no atual DSM-V o que em parte mantém o modelo preso apenas a uma lista de sintomas que também podem fazer parte de outros transtornos mentais e daí a confusão pode ocorrer.

Portanto, o diagnóstico psiquiátrico é eminentemente clínico e depende de uma boa anamnese (história) psiquiátrica e de um ótimo exame psíquico por parte do profissional da área de psiquiatria.

Não há como negar que em alguns casos há sim discordâncias a respeito do diagnóstico até entre especialistas- isso é um fato e não implica jamais em desqualificar qualquer profissional e sim mostrar o quanto a psiquiatria é complexa. Para exemplificar, em jovens, o diagnóstico de transtorno bipolar saltou de 0,42% para 6,67% da população dessa faixa etária. Será que realmente houve um grande aumento de jovens bipolares ou isso está superestimado?

Hoje, é até comum que mulheres com depressão unipolar (não bipolar) e que sejam mais ativas, ansiosas ou irritadas recebam, logo no início da doença, o diagnóstico de transtorno bipolar podendo ser tratadas erroneamente em alguns casos. E isso, logicamente, precisa ser evitado a todo custo.

Como médico, temo que em determinadas circunstâncias oscilemos de um subdiagnóstico (não diagnosticando casos mais leves da doença) para um superdiagnóstico (diagnosticando pessoas que até preencham tais critérios do DSM-V, mas que não são bipolares e sim tenham características de personalidade ou de humor semelhantes). Tais oscilações de extremos diagnósticos já ocorreram ao longo de algumas décadas em várias áreas da medicina, até porque a ciência médica é dinâmica.

Transtorno bipolar é uma doença crônica

Transtorno Bipolar, uma vez diagnosticado, é uma doença crônica e que requer tratamento com estabilizadores de humor por toda a vida, ainda não há cura apesar dos avanços das pesquisas sobre o transtorno em áreas de genética, neuroimagem e medicina biomolecular. Hoje o Transtorno Bipolar é considerado uma doença sistêmica. Os medicamentos são essenciais para que a doença não tenha o seu curso ou prognóstico piorado e para que a pessoa possa ter uma vida absolutamente normal.

Exaltar criatividade e energia do bipolar em fase de mania é um absurdo

Na mídia, em algumas situações, observo que muitos comentários jocosos infelizes são feitos a respeito de bipolares. Alguns até exaltam a criatividade e energia do bipolar em fase de mania como se isso fosse uma vantagem, um total absurdo. Esse aumento de energia do bipolar só o prejudica, tirando o foco de sua atenção e concentração na execução de tarefas simples e trabalhos. Podem também ser mais agressivos e impulsivos nessas horas, com chances de suicídio e acidentes graves. Percebo, infelizmente, que o diagnóstico errôneo de bipolar, em alguns meios leigos, virou sinônimo de (DES)qualificação de pessoas extrovertidas ou com determinadas características de humor e personalidade.

Portanto, como ainda não temos marcadores biológicos ou exames que façam, objetivamente, o diagnóstico de transtorno bipolar, é importante que as pessoas sejam avaliadas por psiquiatras e psicólogos competentes no assunto e jamais façam um autodiagnóstico leigo. E que os verdadeiros bipolares tenham consciência de que o tratamento correto com medicamentos e psicoterapia é essencial para que tenham uma vida normal.

Grupos de autoajuda como a ABRATA (www.abrata.org.br) são de extrema valia na luta contra os preconceitos e informações equivocadas sobre o transtorno, auxiliando pacientes e familiares rumo ao sucesso do tratamento. Sugiro, por fim, que as pessoas leigas jamais se precipitem e tentem fazer o diagnóstico por elas mesmas devido à complexidade do assunto. Hoje o “Dr Google” pode ajudar mas também atrapalhar muito.