Embora um progresso considerável tenha sido feito para determinar fatores de risco para a psicose nas últimas décadas, profissionais de saúde mental não dispõem atualmente de uma ferramenta amplamente disponível para calcular uma estimativa precisa do risco para os pacientes que procuram ajuda. Dois estudos publicados hoje na prestigiada American Journal of Psychiatry sugerem uma espécie de “calculadora” de risco para a previsão individualizada de um transtorno psicótico durante um período de dois anos. Sem dúvida se trata de um avanço na área de psiquiatria.

No primeiro estudo, os pesquisadores liderados por Tyrone Cannon, Ph.D., professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Yale, descreveram como eles examinaram oito critérios para avaliar a predisposição de transtorno psicótico em 596 participantes (idade média de 18,5 anos) durante um período de dois anos no Estudo Longitudinal de Pródromo da América do Norte (NAPLS-2, sigla em inglês).

“Níveis mais altos de conteúdo incomum de pensamento e desconfiança, maior declínio no funcionamento social, aprendizagem verbal e desempenho de memória mais baixos, velocidade mais lenta de processamento e menor idade no início do estudo contribuiram para o risco individual para a psicose,” disseram Cannon e seus colegas. No entanto, os eventos de vida estressantes ou traumáticos além de história familiar de esquizofrenia- não eram fatores preditivos de conversão para psicose, disseram- o que causou surpresa. A taxa global dentro desse modelo de precisão foi de 71% -que os autores observaram que está “no intervalo de valores para calculadoras estabelecidas atualmente em uso para os riscos de doença cardiovascular e câncer, que variam entre 0,58-0,81.”

“Esta ferramenta de previsão representa um avanço potencial para a intervenção precoce em psiquiatria. No entanto, como acontece com qualquer modelo analítico preditivo, seu desempenho deve ser validado em amostras de pacientes de alto risco clínico triados independentemente da NAPLS-2, ” disse Ricardo Carrión, Ph.D., professor assistente de psiquiatria na Hofstra Northwell School of Medicine, em Hempstead, NY.

Para tentar acabar com tal dúvida, a equipe de Carrión avaliou o desempenho da calculadora de risco NAPLS-2 em uma amostra externa e independente dos indivíduos (com idade de 12 a 25) com elevado risco clínico para a psicose coletadas como parte da detecção precoce, intervenção e prevenção do Programa de Psicose (EDIPPP) . A taxa global do modelo de precisão foi de 79% na amostra EDIPPP.

“Embora a replicação é necessário, no momento a calculadora de risco parece ter um potencial considerável para determinar a probabilidade de que um indivíduo irá desenvolver psicose, e pode fornecer uma base para o tratamento personalizado de indivíduos de alto risco clínicos”, Carrión e colegas escreveram.

Portanto, o futuro da psiquiatria caminha cada vez mais para a possibilidade de que os pais possam ter acesso a ferramentas capazes de um diagnóstico precoce em saúde mental, como ocorre em outras áreas da medicina. Isso é importante para que a prevenção ou mesmo o tratamento com abordagens psicossociais e neurocognitivas eficientes sejam realizados com o intuito de que o curso de uma doença mental grave e incapacitante que se inicia na adolescência seja modificado e cause um impacto negativo muito menor na vida dessas pessoas.