Na atualidade, tem havido excesso de uso, por vias legais ou não, de metilfenidato, um psicoestimulante usado para tratamento do transtorno de déficit atencional e hiperatividade (TDAH).

Mesmo sem embasamento científico, muitos têm utilizado dessa classe de droga para melhoria de atenção em pessoas sem o diagnóstico de TDAH, apenas para turbinar a “inteligência”, daí o termo “smart drug”. Vejo colegas de outras especialidades prescrevendo esse tipo de droga para emagrecimento de várias mulheres e homens e muitos sequer sabem do que se trata.

Os resultados de um estudo recém publicado na prestigiada British Medical Journal  (BMJ) mostram que algumas crianças e adolescentes que estão recebendo metilfenidato para o tratamento de TDAH podem estar em risco aumentado para certos eventos cardiovasculares adversos. Isso não impede o uso da droga em situações específicas e com diagnóstico bem feito mas alerta para que a sociedade e os próprios médicos repensem sobre o uso indiscriminado de tais drogas.

“As drogas para o tratamento de TDAH são eficazes na redução dos sintomas de impulsividade e hiperatividade em crianças”, os autores do estudo descreveram, “mas preocupações foram expressas sobre possíveis eventos cardiovasculares adversos com o tratamento de primeira linha, o metilfenidato.”

Para determinar se existe uma associação entre metilfenidato e eventos cardiovasculares adversos em jovens com TDAH, a equipe internacional de pesquisadores analisou  os dados de 1.224 indivíduos provenientes da Coreia do Sul com idades entre 17 anos ou menos  que tinham experimentado um evento cardiovascular  como uma arritmia, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral isquêmico (de acordo com o CID-10) -e tinham recebido pelo menos uma prescrição de metilfenidato. A incidência de eventos cardiovasculares foi ajustado contra o tempo em uso de medicação e doenças preexistentes cardiovasculares.

A análise mostrou que a exposição total de metilfenidato foi significativamente associada com um maior risco de arritmias a partir de um a três dias após o início da medicação.

Para infarto do miocárdio, nenhum aumento no risco foi observado ao longo do tempo total da exposição ao metilfenidato. No entanto, o risco de infarto do miocárdio foi significativo de oito dias a 56 dias após o início do tratamento.

Não houve aumento significativo no risco foi observado para hipertensão, acidente vascular cerebral isquêmico ou insuficiência cardíaca. Não foram observadas diferenças em riscos por qualquer resultado entre as doses de medicação.

Os autores notaram, no entanto, que suas descobertas podem ter sido afetadas por várias limitações do estudo. Entre eles: antidepressivos, antipsicóticos, ou antiepilépticos são muitas vezes prescritos simultaneamente com metilfenidato e poderia explicar alguns dos eventos adversos cardiovasculares. Além disso, enquanto os autores ajustaram suas análises de comorbidades e variáveis concomitantes no tempo, outros fatores de confusão podem ter ocorrido. “Por exemplo, podem haver diferenças na severidade de sintomas de TDAH, uso de substâncias e fatores precipitantes que podem ter influenciado eventos cardiovasculares”, escreveram eles.

“O risco relativo de infarto do miocárdio e arritmias é aumentado no período inicial após o início do tratamento com metilfenidato para TDAH em crianças e jovens”, escreveram os pesquisadores. Eles concluíram que, embora o risco absoluto é provável que seja baixo, a relação risco-benefício de metilfenidato deve ser cuidadosamente considerada, particularmente em crianças com TDAH leve.