Continuando nossa série sobre o uso de cannabis por gestantes e puérperas, sabemos que a cannabis é a substância ilícita mais utilizada por essas mulheres, porém dados sobre a epidemiologia do consumo nessa população específica são limitados, e é provável que os números divulgados estejam muito abaixo da realidade.

Os desafios da maternidade e o consumo de cannabis

A gestação, assim como a puberdade e a menopausa, é caracterizada como um dos períodos mais marcantes que compõem o ciclo vital da mulher.  A  gravidez  e  a  fase  puerperal  impactam  de  forma  importante  na vida da mulher, principalmente na das primíparas. As alterações  são  devidas  a  mudanças  físicas  (fatores hormonais), psicológicas (relacionadas aos cuidados do recém-nascido) e sociais (questões contextuais). Todas essas  transformações  são  um  desafio  à  capacidade de adaptação da mulher e repercutem no seu humor, bem-estar,  relacionamento  com  amigos,  familiares,  e companheiro(a).

Mitos,  tabus,  questões religiosas, aspectos  socioculturais,  a  falta  de  conhecimento  do próprio  corpo  e  das  modificações  que  ocorrem  na gravidez e no puerpério também podem interferir em sua qualidade de vida. Por modificar para sempre o curso da vida da mulher, o caráter “irreversível” da maternidade frequentemente coloca a gestante perante novas emoções, pensamentos, angústias, medos relacionados com a perda do bebê, perda da sua própria autonomia, perda da parceria – sentimentos que contrastam e se equilibram de algum modo com a felicidade, a alegria, o orgulho e o desejo de ser mãe.Esse momento especial pode representar um fator de proteção em relação ao consumo de cannabis, em que a gestante escolhe parar de usar a substância motivada pela saúde do bebê e pela nova fase de sua vida. Por outro lado, estudos como o de De Genna et al. demonstram que há urgência em se pensar alternativas de tratamento para mulheres que não interrompem o consumo. Os autores verificaram  que,  entre  as  456  gestantes  recrutadas (idades entre 13 e 42 anos) entre 1 ano antes da gestação até 16 anos após o parto, as mães mais jovens tinham maior probabilidade de seguir fazendo uso da substância, de parar de usar tardiamente e de fazer uso crescente e crônico durante os 17 anos de acompanhamento. Entre as  usuárias  mais  frequentes,  observaram  também  o consumo de outras substâncias e sintomas depressivos crônicos, que representam fatores agravantes.

As possíveis  dificuldades  e  estresse  gerados  pela gestação podem representar um fator de risco, sendo o consumo uma forma desadaptada de manejar as emoções negativas  geradas  nessa  fase.  Em  estudo  com  824 jovens mulheres australianas de 24 anos de idade, entre as 170 mulheres que tiveram uma ou mais gestações, as que tiveram um aborto espontâneo apresentaram um risco maior de ser dependentes de cannabis e nicotina, de fazer consumo excessivo de álcool e de apresentar sintomatologia depressiva.Recentemente,  pesquisadores  vêm  estudando  a síndrome de hiperêmese por canabinoide como fator de risco para o consumo de cannabis durante a gestação, pois esse quadro pode causar sintomas de náusea e vômitos intensos  nesse  período.

Estudo  realizado  no  Havaí com 4.735 mulheres identificou o relato de consumo de cannabis  em  6,0%  da  amostra  no  mês  anterior  à gravidez. Dessa porcentagem, aproximadamente 21,2% relatou náusea severa durante a gravidez, com maior probabilidade de fazer uso da substância na gestação (3,7 versus 2,3%).

PerfIl da Gestante usuárIa de cannabis

Apesar do consumo de cannabis ser uma preocupação para  a  saúde  pública,  o  número  de  gestantes  e puérperas usuárias ainda é subestimado. Isso se deve, principalmente, ao fato de os estudos de prevalência investigarem  o  consumo de cannabis  a  partir  de entrevistas com as mães, que podem não revelar o uso ou a quantidade exata desse consumo por medo de serem julgadas, repreendidas ou mesmo punidas. O mesmo vale para profissionais da saúde: essas mulheres podem não relatar o consumo, apesar de saberem do potencial de causar prejuízos para a sua saúde e a do feto.Uma das alternativas para se obter a confirmação do  uso  de substâncias  é  a  análise  do  mecônio, sangue da mãe ou fio de cabelo da mãe.

Em  uma  pesquisa  realizada  em  uma  maternidade  pública de  São  Paulo,  nenhuma  das  1.000  adolescentes gestantes reportaram o uso de drogas em entrevista com profissional da saúde. Porém, ao se analisar os fios  de cabelo  das  entrevistadas,  verificou-se  que 4% usaram maconha, 1,7% cocaína e 0,3% maconha e cocaína durante o terceiro trimestre da gravidez. O perfil sociodemográfico dessa amostra é de baixa renda, abandono escolar, desemprego, e dependência financeira, e o consumo foi associado a faixa etária menor de 14 anos, histórico de mais de três parceiros sexuais e presença de transtornos mentais.Mundialmente,  estima-se  que  de  3  a  10%  das gestantes  consumam cannabis,  porém  a  maioria  dos estudos  ainda  utiliza  a  entrevista  como  forma  de coleta de dados. Um dos exemplos é a França, que entrevistou uma amostra representativa de mulheres (n = 13.545) que realizaram parto no ano de 2010 em todas as maternidades do país. A partir das entrevistas e dos históricos médicos das participantes, foi constatado que 1,2% das mulheres fez uso de cannabis durante a gestação. Esse consumo foi maior em mulheres jovens, que moravam sozinhas e que tinham baixa escolaridade ou baixa renda, as quais também apresentavam maiores chances de fazer uso de tabaco e beber álcool. Entre as usuárias de cannabis a taxa de partos prematuros é mais elevada.

No próximo artigo escreveremos sobre as consequências do uso de Cannabis na gestação e puerpério assim como efeitos no feto. Aguardem!

Fonte:

Artigo de Revisão da Revista Debates em Psiquiatria da ABP

EFEITOS DO CONSUMO DE CANNABIS NA GRAVIDEZ E NO PERÍODO PÓS-PARTO

EFFECTS OF CANNABIS CONSUMPTION DURING PREGNANCY AND IN THE POSTPARTUM PERIOD

Autores: Hewdy Lobo Ribeiro; Joel Rennó Jr; Renata Demarque; Juliana Pires Cavalsan; Renan Rocha; Amaury Cantilino; Jerônimo Ribeiro; Gislene Valadares; Antonio Geraldo da Silva