As crianças de mães obesas pré gravidez tiveram risco aumentado de resultados adversos de desenvolvimento. Essa foi a conclusão de um estudo de Heejoo Jo e seus colegas [1] com base nos resultados de um estudo longitudinal da saúde materna e saúde infantil e práticas de alimentação realizado com 1311 pares mãe-filho.

Vários resultados apresentados sugerem que as mães com IMC (índice de massa corpórea) acima de 35 – classificadas como obesas graus II e III – eram potencialmente um pouco mais propensas a ter uma criança que se apresenta com vários “sintomas emocionais” ou “dificuldades psicossociais” em comparação com aquelas crianças das mães com um peso mais típico (IMC 18,5-24,9). Até diagnósticos específicos de desenvolvimento eram mais frequentes nos filhos de mães obesas como grupo. É importante salientar que os autores observaram que o ajuste para possíveis fatores causais incluindo ganho de peso da gravidez, diabetes gestacional, duração da amamentação, depressão pós-parto e peso ao nascer da criança não afetaram substancialmente a maioria das estimativas.

Sem querer culpar ou estigmatizar as mães obesas que já são extremamente marginalizadas socialmente, a constatação de que o IMC pode ser um fator de risco específico até para um diagnóstico de transtorno do espectro autista chama atenção. O artigo de Paula Krakowiak e colegas [2] relaciona o IMC elevado a alterações metabólicas como o diabetes gestacional e risco aumentado de autismo e tal evidência não é um fato novo.

É importante ressaltar que há muitas variáveis interferindo na gravidez e que podem também influenciar o risco de autismo [3] e que podem talvez trabalhar em sinergia com a questão do peso.  A saúde pública pode estimular ações modificáveis como a perda de peso em mulheres com obesidade severa e que estejam tentando engravidar [4]. Se a mulher está muito acima do peso e grávida não deve tentar perder peso durante a gravidez, já que este procedimento não é seguro. Também há ainda algum debate sobre a melhor maneira de conseguir a perda de peso (antes da gravidez) de uma forma segura e saudável.

A questão dos fatores de risco para o autismo é um tema complicado e muitas vezes emotivo quando períodos como a gravidez são jogados na mistura. Tem que saber lidar com tais riscos com a maior sensibilidade possível e respeito e há sempre o risco de que a correlação / associação pode ser visto como ‘culpa’. A culpa é certamente algo que os pesquisadores sérios jamais tiveram a intenção de gerar com essas investigações e espero que os leitores não tenham uma visão distorcida de tais dados. O importante é se enxergar o que realmente pode estar atrás dos mecanismos pelos quais os processos metabólicos podem contribuir para um risco aumentado de autismo [5]. E nunca é demais enfatizar que outras correlações além da obesidade também estão presentes nesse tema complexo envolvendo o autismo.

REFERÊNCIAS

[1] H Jo. et al. Maternal Prepregnancy Body Mass Index and Child Psychosocial Development at 6 Years of Age. Pediatrics. 2015. April 27.

[2] Krakowiak P. et al. Maternal Metabolic Conditions and Risk for Autism and Other Neurodevelopmental Disorders. Pediatrics. 2012;129(5):e1121-e1128.

[3] Walker CK. et al. Preeclampsia, placental insufficiency, and autism spectrum disorder or developmental delay. JAMA Pediatr. 2015 Feb;169(2):154-62.

[4] Reynolds LC. et al. Maternal obesity and increased risk for autism and developmental delay among very preterm infants. J Perinatol. 2014 Sep;34(9):688-92.

[5] Hussen HI. et al. Maternal overweight and obesity are associated with increased risk of type 1 diabetes in offspring of parents without diabetes regardless of ethnicity. Diabetologia, April 2015.

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ARTIGO PRINCIPAL
Jo, H., Schieve, L., Sharma, A., Hinkle, S., Li, R., & Lind, J. (2015). Maternal Prepregnancy Body Mass Index and Child Psychosocial Development at 6 Years of Age PEDIATRICS, 135 (5) DOI: 10.1542/peds.2014-3058