Novas pesquisas clínicas permitem traçar estratégias focadas no sexo feminino baseadas em evidências.

Diferenças entre os sexos masculino e feminino são proeminentes na sintomatologia e no curso dos transtornos mentais. A ciência avança por caminhos em que o sexo masculino está deixando de estar super-representado nas pesquisas clínicas e que, aos poucos, incorporará informação sobre fase do ciclo menstrual ou se a mulher estava na pré ou pós-menopausa. Há também mudanças sociais, como as que afastaram o transtorno do uso de substâncias de ser um diagnostico principalmente masculino, e perguntas novas, como se os programas grupos de tratamento de dependência química podem ou não ser mistos.  Outras questões, como a inclusão do Transtorno Disfórico Pré-menstrual (TDPM) como subtipo de depressão no DSM-5 ainda é assunto de debate.

Um novo livro, coordenado e com grande participação de autores brasileiros percorre estes assuntos ao oferecer um guia clínico baseado em evidências sobre as diferenças entre os sexos, mais precisamente na etiologia, epidemiologia, apresentação clínica e terapêutica dos transtornos psiquiátricos (1). “Elas tem um risco 1,5 maior do que os homens de sofrer algum transtorno mental ao longo da vida” –  resume para o Medscape em português (jornalista Roxana Tabakman) o organizador do livro,  professor Dr Joel Rennó Jr.

“O assunto não é apenas de interesse dos psiquiatras” – acrescenta o Dr. Joel, que coordena há vinte anos o programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Ipq- HCFMUSP) e é coordenador da Comissão de Saúde Mental da Mulher da Associação  Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Segundo o Dr Joel, os obstetras ainda não têm a cultura de avaliar a saúde mental na gravidez e no pré-natal, mas deveriam.  “É possível fazer prevenção, e caso a depressão pós-parto ocorra, fazer o diagnostico precocemente”, exemplifica. Ele observa que muitas das mudanças vistas como decorrente da fisiologia gestacional, seriam quadros de depressão não diagnosticados. Há um instrumento de rastreamento autoaplicável em 3 minutos, a Escala de Depressão Pós-parto de Edimburgo (EPDS), que é um questionário simples para indicar risco maior e, se necessário, encaminhar a paciente para o psiquiatra. “Se não fizer uma avaliação naquele momento, a paciente pode desenvolver um quadro grave de depressão pós-parto. Se for detectado no início, às vezes pode ser resolvido exclusivamente por psicoterapia cognitivo-comportamental e interpessoal. E se for mais grave, pode administrar alguns medicamentos avaliando-se sempre os riscos e benefícios. Deixar de tratar também oferece riscos” conclui.

Risco aumentado

A taxa de transtorno depressivo maior (MDD) em mulheres na idade reprodutiva é o dobro da dos homens, e há uma maior taxa de tentativas de suicídio. Transtornos de ansiedade são aproximadamente duas vezes mais prevalentes em mulheres do que em homens e também são mais prevalentes em mulheres transtornos alimentares, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Além das diferenças de origem biológica, as mulheres estão mais expostas, principalmente quando crianças e adolescentes, à violência emocional, física e sexual, incluindo violência de familiares com traumas que podem trazer impacto anos mais tarde.

O transtorno de pânico que é um subtipo de transtorno de ansiedade que é cerca de quatro vezes mais frequente nas mulheres

Curso da doença diferente

A prevalência do transtorno bipolar é similar nos dois sexos, mas a flutuação hormonal tem impacto na apresentação clínica e a severidade.

Entre as mulheres que sofrem de Transtorno Afetivo Bipolar, é mais frequente o do tipo 2, caraterizado por fases de hipomania com depressão, e elas permanecem mais tempo na fase depressiva.

Os transtornos de ansiedade apresentam mais sintomas, tem apresentação clínica mais grave e geram maior impacto negativo.

Estas pacientes apresentaram níveis significativamente mais elevados de agorafobia (evitam lugares ou situações que possam gerar crises de ansiedade), e os escores de Qualidade de Vida Relacionada à Saúde são significativamente menores.  O transtorno do pânico é mais crônico entre as mulheres do que entre os homens, e está associado a maiores taxas de comorbidade.

Acreditava-se que a gravidez era um fator protetor para o transtorno de pânico, no entanto, embora alguns estudos mostrem resultados diferentes, os sintomas pré-existentes do transtorno do pânico são exacerbados em um terço das mulheres durante a gravidez. Transtorno do pânico está presente em 0,2% a 5,2% das gestantes.

Depressão atípica

A mulher tem, com mais frequência que os homens, depressão atípica, aquela em que os sintomas que fogem dos comuns, e cursam com hiperfagia, hipersonia, sensibilidade pessoal a rejeição e irritabilidade. Tem correlação com histórico familiar de depressão e o nível de gravidade pode ser maior.

Conclusão

Portanto, é importante que todos os profissionais de saúde que atendem mulheres compreendam e estudem as questões gênero-específicas envolvendo a saúde mental da mulher, a fim de que diagnósticos mais precisos e melhores tratamentos sejam oferecidos às mesmas. Só assim venceremos a luta contra o estigma que envolve a doença mental e que é mais exacerbado no sexo feminino.

FONTE:

Medscape

Women’s Mental Health: A Clinical and Evidence-Based Guide

Rennó Jr et al, 2020