Quem já sofreu na própria pele de depressão grave ou tem um familiar querido que vive tal drama sabe o quanto os tratamentos atuais visam apenas ao controle dos sintomas da doença. Em muitos casos, há um agravamento da doença ao longo dos anos de tratamento e as respostas terapêuticas podem diminuir consideravelmente.

O grande sonho de consumo da psiquiatria é descobrir novos antidepressivos que possam reverter o processo de depressão no cérebro e não apenas controlar os sintomas. Como ocorre, por exemplo, quando alguém tem uma infecção de garganta pela bactéria Streptococcus e toma um antibiótico ficando curada.

Recentemente, estive uma reunião com o Professor de Psiquiatria Gerard Sanacora, da University of New York, um dos mais brilhantes estudiosos e pesquisadores de novos tratamentos em psiquiatria.

Para o sucesso dessa empreitada, precisamos conhecer a fundo os mecanismos fisiopatológicos da depressão, ou seja, suas causas biológicas e psicossociais.

Em linhas gerais, sabemos que o estresse tóxico aumenta os níveis do neurotransmissor glutamato (mensageiro químico cerebral) no conhecido sistema córtico-límbico do sistema nervoso central. Medicamentos, portanto, que protegem contra essa neurotoxicidade inibindo o receptor conhecido como NMDA (onde atua o glutamato) promovem um efeito antidepressivo significativo. Como grande exemplo, temos o anestésico Cetamina cujo primeiro estudo específico em psiquiatria ocorreu em 1973. Esse estudo iraniano publicado há quase 50 anos, foi replicado e ampliado em diversos centros de pesquisa e tal tratamento já foi aprovado recentemente pela FDA (Agência regulatória de Medicamentos dos EUA) para tratamento de depressão grave e refratária. Outro exemplo de um tratamento curativo e não paliativo pode ser decorrente do conhecimento advindo dos medicamentos Brexanolona e Zuranolona aprovados pela FDA para tratamento de depressão pós-parto (DPP). Aliás, tais medicamentos foram os primeiros aprovados especificamente para DPP e têm um efeito neuroplástico direto sobre o sistema gabaérgico modificando o mecanismos de ação da depressão e melhorando o prognóstico da mesma. Isso representa um grande avanço.

Hoje sabemos que em muitos pacientes deprimidos pode haver um processo neurodegenerativo ao longo do tempo decorrente em parte por um processo inflamatório crônico. A tendência é que quanto mais tempo a pessoa fica com depressão, mais danos ocorrem no cérebro e as falhas terapêuticas tendem a agravar o quadro. Portanto, é importante que o tratamento além de regular seja feito de forma precoce e dentro de uma abordagem multidisciplinar. A adesão ao tratamento é essencial, sem idas e vindas.

Outro assunto controverso é a famosa “receita de bolo” que muitos livros de autoajuda com fins mercantilistas divulgam. A depressão é uma doença heterogênea e complexa que varia de pessoa para pessoa. Só agora estamos conseguindo medicamentos que realmente podem modificar o curso da doença. E por fim temos que deixar de lado visões simplistas e repletas de dogmas anticientíficos que só aumentam os preconceitos e estigma associados às pessoas com quadros mais graves e refratários aos tratamentos.

Fonte: www.psiquiatriadamulher.com.br

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