Queixa prevalente dos pacientes, a verdade é que a insônia dos nossos pacientes não pode ser minimizada ou ignorada, significa a nossa sobrevivência. O normal é o ser humano dormir entre 7 a 9 horas por noite. O sono profundo é essencial para o processo de regeneração de células além da consolidação de nossas memórias. No longo prazo, algumas doenças, entre outras, como as cardiovasculares e metabólicas podem ser causadas pela insônia.

Durante a pandemia, os casos de insônia explodiram e muitos deles decorrentes dos vários gatilhos estressores reinantes no período como dificuldades econômicas, doenças pessoais ou familiares, desemprego, desavenças familiares e perda de entes queridos.

A automedicação da insônia costuma ser um grande problema. Muitas pessoas conseguem prescrições de drogas como benzodiazepínicos (alprazolam, diazepam, clonazepam), os populares “tarja preta”, sem nenhum tipo de controle e acompanhamento médico. Outra febre é o uso indiscriminado das imidazopiridinas (zolpidem) anteriormente consideradas seguras e incapazes de causar dependência – o que hoje foi corrigido pela ciência. Temos a comprovação de que o mau uso do Zolpidem pode causar dependência no médio e longo prazo além do potencial de  causar prejuízos de memória e sonambulismo em algumas pessoas. Portanto, o cuidado e o acompanhamento médico são sempre essenciais.

Muitas pessoas começam a fazer uso do “amigo” álcool nessas circunstâncias e inicialmente pela sensação de relaxamento e lentificação motora provocados pela ação do álcool como depressor do Sistema Nervoso Central (SNC) alegam um efeito positivo. Só que o álcool altera completamente a citoarquitetura do sono fisiológico ou normal e isso significa que ele piora muito a qualidade do sono. Isso sem contar inúmeros casos de dependência de álcool que surgem dentro desse processo de automedicação da insônia.

A panacéia do uso de suplementos à base de melatonina (que reproduz o hormônio produzido no cérebro com a escuridão) é outra questão que requer uma reflexão. Os melhores estudos a respeito da eficácia da melatonina na melhora efetiva da insônia, além de limitados, têm resultados desanimadores com efeito positivo restrito e benéfico só em um subgrupo de pessoas. A eficiência do sono não aumentou mais do que 2,2%, o tempo para iniciar o sono mais cedo girou ao redor de 4 a 7 minutos apenas e a duração total do sono atingiu um patamar máximo de 13 minutos.

E o que fazer? Em primeiro lugar, precisamos avaliar a rotina de vida das pessoas e incluir algumas práticas simples e conhecidas como higiene do sono que compreendem ajustar a temperatura do quarto, não fazer exercícios fisicos intensos à noite, não beber líquidos à base de cafeína depois das 15 horas e jantar com pelo menos duas horas de antecedência do horário previsto para adormecer. Não levar trabalhos ou celulares para a cama ajudam também.

Algumas estratégias comportamentais e cognitivas da psicoterapia cognitivo-comportamental, além de técnicas de meditação podem ajudar em muitos casos. Na maioria das vezes, as resoluções podem ser mais simples do que as projetadas mas muitos não querem fazer a sua parte no processo e optam pela “fórmula mágica” dos medicamentos que possuem riscos e ações limitadas. E nada em nossas vidas é simples assim. Importante frisar que nenhum medicamento reproduz de forma fidedigna a estrutura completa do sono normal.

Fundamental ressaltarmos que o melhor gerenciamento do nível de estresse, burnout e e tratamento de quadros psiquiátricos como os depressivos e ansiosos ajudam a milhares de pacientes que sofrem de insônia secundária a eles.

Por fim, é essencial também não nos esquecermos, como médicos, de encaminhar muitos desses pacientes a especialistas em insônia a fim de que sejam investigadas causas como apnéia ou hipopnéia que podem levar ao sono de má qualidade e de riscos à saúde física e mental das pessoas. Em alguns casos, o exame de polissonografia, além da avaliação do especialista, podem ser bastante esclarecedores.