Há um debate intenso há mais de uma década entre clínicos e pesquisadores a respeito do uso de medicamentos psiquiátricos durante a infância e adolescência. Nossas crianças estariam sendo diagnosticadas corretamente? E estão recebendo os tratamentos adequados?

Tudo passa sempre por um diagnóstico psiquiátrico apurado realizado pelo especialista. Os critérios do DSM-5, Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, abrangem uma série de padrões de comportamentos e alterações de humor que em algumas circunstâncias podem não refletir necessariamente uma doença que mereça tratamento medicamentoso. E sabemos que na área de psiquiatria o diagnóstico é ainda eminentemente clínico, não temos exames diagnósticos específicos.

A realidade é que o número de crianças e adolescentes que tomam vários tipos de medicamentos psiquiátricos aumentou significativamente desde 1999 nos Estados Unidos, impulsionado principalmente por prescrições para jovens com diagnóstico de transtorno de déficit de atenção / hiperatividade (TDAH).

Essas descobertas foram publicadas no prestigiado JAMA Pediatrics. “O uso de medicamentos de duas ou mais classes psicotrópicas, ou seja, polifarmácia, aumentou entre os jovens dos EUA, apesar das evidências limitadas de eficácia e crescentes preocupações de segurança”, escreveu Chengchen Zhang, M.P.H., da Escola de Farmácia da Universidade de Maryland e colegas. Zhang e colegas analisaram dados das Pesquisas do Painel de Despesas Médicas (MEPS) coletadas entre 1990 e 2015. O MEPS é uma pesquisa nacional que rastreia várias tendências no uso e gastos com saúde. Os pesquisadores examinaram o número de jovens de até 18 anos que receberam prescrições de pelo menos três classes de medicamentos psiquiátricos a cada ano da pesquisa. As classes de medicamentos incluídos na análise foram estimulantes, antidepressivos, estabilizadores de humor, antipsicóticos, ansiolíticos, sedativos e α-agonistas. Os dados foram agrupados em três blocos: 1999-2004, 2005-2010 e 2011-2015.

Zhang e colegas descobriram que o número de jovens prescritos com três ou mais classes de medicamentos psiquiátricos aumentou de 101.836 entre 1999 e 2004 para 222.955 entre 2005 e 2010 e finalmente para 293.492 entre 2011 e 2015. Os estimulantes foram os medicamentos mais comuns prescritos para jovens tratados com polifarmácia em todos os três períodos de tempo. Mais de 80% dos jovens tiveram um diagnóstico de TDAH. O uso de antipsicóticos por jovens com vários medicamentos psiquiátricos prescritos aumentou acentuadamente durante esse período (de 38% dos jovens recebendo polifarmácia entre 1999 e 2004 para 75% dos jovens entre 2011 e 2015). Em contraste, houve um declínio significativo no uso de estabilizadores de humor (de 61% dos jovens entre 1999 e 2004 para 38% dos jovens entre 2011 e 2015). Entre 2011 e 2015, a combinação de três medicamentos mais comum foram estimulantes, antipsicóticos e α-agonistas, que foram prescritos para quase 22% de todos os jovens na análise.

Portanto, é importante que interpretemos esses dados de uma forma crítica. Se por um lado não podemos deixar de medicar um adolescente com distúrbio mental grave, por outro não podemos medicar todas as crianças e adolescentes sem antes uma avaliação psiquiátrica competente e realizada por especialista gabaritado. Até porque tais medicamentos quando mal prescritos podem gerar prejuízos à saúde e qualidade de vida de crianças e adolescentes. E há tratamentos não medicamentosos que podem ser úteis para grande parte das crianças.

REFERÊNCIA: “Education Can Reduce Antipsychotic Polypharmacy”.  Psychiatry News.

JAMA Pediatrics