Muitos pacientes deprimidos deparam-se com um drama em suas vidas: a não resposta ou resposta parcial ao tratamento. Isso pode ocorrer em cerca de 40% a 50% dos pacientes que utilizam os antidepressivos.

É uma dúvida rotineira na prática clínica e no dia a dia dos consultórios médicos levando alguns ao descrédito quanto ao tratamento psiquiátrico com piora dos preconceitos existentes além do grande sofrimento e prejuízo em diversas esferas de suas vidas.

Atualmente, surgiram como grande esperança da maior eficácia e acerto dos tratamentos, os testes farmacogenéticos que prometem um tratamento personalizado aos pacientes deprimidos de acordo com o perfil genético de metabolização controlado por enzimas hepáticas do denominado citocromo P450. A maioria dos psicotrópicos é metabolizada pelo CYP2D6.

Há metabolizadores lentos, moderados, rápidos e ultrarrápidos. Enquanto os metabolizadores lentos costumam ter mais efeitos colaterais, os metabolizadores ultrarrápidos possuem níveis baixos do medicamento no plasma e poderiam ser mais resistentes ao tratamento. Só que até o momento conhecemos muito pouco a respeito dessas complexas interações genéticas. Sabemos que a metabolização hepática dos antidepressivos não depende apenas dos fatores genéticos medidos pelo teste e pode sofrer influência de fatores ambientais não mensurados como alimentação, uso de álcool, cigarro e por fim de outros medicamentos que as pessoas tomam. Outro detalhe é que não há explicações convincentes até o presente de que níveis plasmáticos baixos impliquem realmente em não eficácia dos antidepressivos como alguns laboratórios responsáveis por tais testes alegam. Tem muito ainda a se esclarecer sobre o assunto.

Portanto, acho precipitado o excessivo marketing sobre esses testes farmacogenéticos que inclusive ainda têm custos elevados. Mas sem dúvida no futuro serão instrumentos muito valiosos.

Outros fatores podem levar um paciente deprimido a não responder ao tratamento farmacológico proposto e o médico não pode perder isso do seu ponto de vista. Vamos citar alguns deles:

  • Baixa aderência ao tratamento. É comum na área de psiquiatria as pessoas não seguirem corretamente o tratamento por questões do estigma associado à doença mental e temendo efeitos colaterais ou dependência. Mas não há evidências científicas de que os antidepressivos causam dependência. Muitas pessoas alegam que não passam bem quando cessam os medicamentos por conta própria porque na realidade sofrem de uma doença crônica.
  • Diagnóstico errado. Em psiquiatria o diagnóstico é eminentemente clínico, através do exame e anamnese psíquicos realizados pelo psiquiatra. Nas mulheres, nem sempre é simples o diagnóstico diferencial entre a depressão bipolar versus a depressão unipolar. Algumas mulheres bipolares podem não ter apresentado ainda fase de mania (oposto da depressão) e portanto essa subpopulação não responderia mesmo aos antidepressivos e sim aos estabilizadores de humor.
  • Quadros orgânicos ou determinados medicamentos associados. Hipotireoidismo, Cushing, Diabetes entre outras doenças clinicas além de determinados medicamentos (como corticóides, quimioterápicos e propranolol) podem levar a maiores chances de depressão.
  • Comorbidades. É muito comum os pacientes deprimidos, principalmente as mulheres, terem outros distúrbios psiquiátricos associados (transtornos de ansiedade, dependência de álcool, transtornos alimentares e transtornos de personalidade) não diagnosticados e tratados adequadamente. Isso leva a respostas parciais ao tratamento antidepressivo.
  • Outras causas da depressão. Depressão como doença inflamatória e sendo causada por outros mecanismos além das disfunções de neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina. Atualmente há uma série de pesquisas sobre diferentes mecanismos neurobiológicos causadores da depressão (fator neurotrófico derivado do cérebro, citocinas inflamatórias, alopregnanolona, etc) e portanto os atuais antidepressivos cobrem apenas uma parte dos possíveis fatores etiológicos da depressão.
  • Neuroticismo. Algumas pessoas tendem a ter uma visão ou leitura extremamente negativa a respeito de situações frustrantes, de luto ou outras perdas com atitudes passivas e retraídas perante os obstáculos. E sem o auxílio importante de uma psicoterapia realizada com psicólogos em conjunto com o tratamento medicamentoso psiquiátrico a evolução do quadro torna-se limitada nas pessoas com esses traços de personalidade.
  • Manejo inadequado dos antidepressivos. Erros na prescrição dos antidepressivos seja pelo tempo inadequado ou subdosagem. Há algumas estratégias importantes da melhora da eficácia dos antidepressivos que só o psiquiatra tem conhecimento. Porém, na atualidade, sabemos que médicos sem conhecimento aprofundado no assunto prescrevem tais medicamentos até de forma indiscriminada em determinadas situações.

Por fim, hoje temos outros tratamentos não farmacológicos quando as respostas aos medicamentos é precária como a estimulação magnética transcraniana, corrente elétrica contínua e a ECT (eletroconvulsoterapia) que podem auxiliar em alguns casos.

A atividade física aeróbica é um complemento importante na maioria dos casos clínicos e deve ser encarada como um outro “remédio”. Mudanças alimentares e de hábitos de vida costumam também ajudar no precisam ser orientadas, além do estímulo à participação de familiares no tratamento.

FONTE: www.psiquiatriadamulher.com.br