A ciência é muito dinâmica e mutável, não há dogmas que se sustentam ao longo do tempo e, portanto, podem e devem ser questionados sem paixões ou interesses ideológicos.

Tudo deve ser analisado pelo prisma da crítica sensata, cientificamente embasada e sem viés político.

Verdades absolutas não existem de um lado ou outro. Debates construtivos e respeitosos de ambos os lados são sempre bem-vindos.

Acabou de ser liberado um artigo publicado em uma das revistas do grupo do The Lancet, publicações britânicas prestigiadas no meio científico.

Esse artigo sugere que houve uma mortalidade maior da COVID-19 em municípios brasileiros que votam no Bolsonaro. Seguramente, existem inúmeras explicações distintas e talvez alguns erros metodológicos o que não invalida nossas reflexões e debates sensatos e sem agressões bilaterais entre esquerda, centro e direita. Afinal de contas, o que deveria ser a prioridade de todos é o Brasil.

Durante o pico da pandemia foi notório que a COVID-19, em alguns momentos agudos, pode ter sido agravada pela ausência de uma campanha informativa coordenada e conduzida pelo nosso governo. Mensagens ambivalentes também confundiam as pessoas. Disputas políticas entre Governo Federal, Estaduais e Municipais também minaram a eficiência. Houve muitos conflitos resultantes nas atividades de controle das doenças com comportamentos de proteção distintos em Estados e Municípios.

No presente estudo, os pesquisadores investigaram como o partidarismo político e fatores socioeconômicos determinaram o desfecho da COVID-19 em nível local no Brasil.

A metodologia foi a seguinte: um estudo retrospectivo de mortes por COVID-19 foi realizado usando bancos de dados de mortalidade entre fevereiro de 2020 e junho de 2021 para os 5.570 municípios brasileiros. Parâmetros socioeconômicos, incluindo categorias de cidade, renda e índices de desigualdade, qualidade do serviço de saúde e partidarismo, avaliados pelo resultado da segunda rodada do Eleições presidenciais brasileiras de 2018, foram incluídos. A análise da árvore de regressão foi realizada para identificar as relações de significância e condicionamento das variáveis.

O que foi constatado?

Os municípios que apoiaram o então candidato Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 foram os que tiveram as piores taxas de mortalidade por COVID-19, principalmente durante a segunda onda epidêmica de 2021. Esse padrão foi observado mesmo considerando as desigualdades estruturais entre as cidades.

E qual a Interpretação dos pesquisadores?

Em geral, a primeira fase da pandemia atingiu com mais força as cidades grandes e centrais, enquanto a segunda onda impactou principalmente os municípios bolsonarianos, onde o negacionismo científico entre a população era mais forte.

Os efeitos do partidarismo em relação à direita nos resultados da COVID-19 contrabalançam fatores socioeconômicos favoráveis até em cidades brasileiras abastadas.

E o que os cientistas concluíram?

Os resultados ressaltam a fragilidade das políticas públicas de saúde que foram minadas pelo negacionismo científico dos partidários da direita no Brasil.

Tais resultados apontam para a necessidade de que quando o assunto é medicina ou saúde deve haver uma descontaminação das posições ideológicas ou políticas de qualquer uma das partes envolvidas. Cabe aos cientistas e médicos que praticam a verdadeira medicina baseada em evidências estabelecerem protocolos eficazes e acatados por todos.

Por fim, houve um estresse significativo na população que em muitas situações ficou confusa ou sem rumo pelas contradições de inúmeras informações de economia e saúde além até da falta de amparo afetivo-emocional por parte de nossos governantes.

FONTE: The Lancet, 2022.