Tomar antidepressivo na gravidez é uma situação complexa e que requer uma ampla avaliação por parte do psiquiatra, paciente e familiares a respeito de todos os riscos e benefícios envolvidos. Os trabalhos científicos são escassos e possuem resultados controversos. A decisão precisa ser muito bem embasada cientificamente e tomada de acordo com a experiência clínica do psiquiatra.

A maior preocupação de todos costuma ser em relação às malformações fetais durante o primeiro trimestre gestacional (primeiras doze semanas). Apesar da enorme preocupação, grande parte dos antidepressivos não causam malformações fetais, principalmente aqueles do grupo de “inibidores seletivos da recaptação de serotonina” como a fluoxetina e o citalopram – os mais comumente utilizados.

Qualquer mulher, mesmo não tomando antidepressivos, pode ter um risco entre 3% a 4% de malformação fetal. Outros medicamentos da área clínica e não psiquiátricos também podem causar malformações, assim como o tabagismo e o uso de álcool na gravidez. Embora as malformações sejam os efeitos mais temidos, há pesquisas que avaliam os efeitos dos antidepressivos em partos prematuros, como baixo peso ao nascer e abortamentos espontâneos. Embora os efeitos sejam pequenos e até insignificantes em muitos casos, não podem ser desprezados. Vale a pena enfatizar também que a própria depressão não tratada pode antecipar o parto e levar ao crescimento intrauterino retardado, gerando bebês pequenos e de baixo peso ao nascer. Até recentemente os trabalhos não avaliavam com rigor os riscos da própria doença depressiva na gravidez e no feto.

Outra preocupação importante é a hipertensão pulmonar persistente do neonato (recém-nascido). Por alterações vasculares no pulmão do bebê e persistência do duto arterioso, pode haver um “shunt” ou comunicação entre as cavidades direita e esquerda do coração, levando a problemas sérios de oxigenação e risco de morte ao feto a partir da 20ª semana de gestação. Outros fatores podem levar à hipertensão pulmonar de forma mais frequente que os antidepressivos como sepsis, parto cesariano, IMC (Índice de Massa Corpórea), hipóxia (deficiência de oxigênio) e aspiração do mecônio (primeiras fezes do bebê). Na atualidade, estima-se que o risco de hipertensão pulmonar persistente do neonato, por antidepressivo, é de apenas 0,19%, ou seja, muito baixo.

Uma outra preocupação em relação aos antidepressivos seria a possibilidade de toxicidade neonatal com tremores, agitação, insônia e irritabilidade- além da dificuldade de sucção do leite materno. O risco gira ao redor de 15%, porém tais efeitos costumam ser leves e transitórios (duram no máximo duas semanas), sem riscos significativos ao bebê e raríssimos casos poderiam ser mais graves com icterícia e convulsões.

Por fim, há um termo que denominamos “teratogênese comportamental”. A pergunta é se os antidepressivos usados na gravidez poderiam causar sequelas futuras no desenvolvimento psicomotor, cognitivo e comportamental nessas crianças. Até o momento, não há evidências substanciadas a esse respeito, ou seja, as crianças de mães que utilizaram antidepressivos na gravidez não têm atrasos de desenvolvimento emocional, de linguagem ou QI inferior.

É fundamental, portanto, que as mulheres que utilizam antidepressivos façam um planejamento para engravidar. Não há verdades absolutas nessa área e só os psiquiatras especializados em saúde mental da mulher podem realmente avaliar todos os riscos e benefícios envolvidos. O vínculo entre médico, pacientes e familiares é fundamental nessa área. NÃO HÁ DECISÕES SEM RISCOS! E geralmente o tratamento do distúrbio psiquiátrico é essencial.