Hoje, 10/10, comemoramos o Dia Mundial da Saúde Mental.

Apesar dos avanços de estudos e pesquisas neurobiológicas – principalmente na última década- ainda temos muito a avançar no tratamento de uma doença mental que também pode ser fruto de uma Doença da Sociedade .

Recente trabalho publicado na prestigiada The Lancet, demonstrou a importância dos fatores sociais no desencadeamento ou até mesmo na causa de vários transtornos mentais como depressão, entre outros. Podem tanto proteger quanto prejudicar.

A depressão pode estar relacionada a fatores inflamatórios e imunológicos decorrentes de um estresse oxidativo. Situações sócio-econômicas precárias geradoras de sofrimento e estresse podem contribuir de forma significativa como gatilhos estressores e isso pode ser evitado em um modelo de sociedade mais justa, igualitária e humanitária.

No caso do sexo feminino e da população LGBTQIA+, entre outras, vemos ainda cenas dantescas de discriminação e violências de diversos níveis. Tais situações traumáticas estão na gênese de muitos dos transtornos mentais dessas populações. Muitas notícias e poucas ações efetivas no combate. A psicofobia, ou seja, o preconceito contra quem sofre de transtorno mental é a regra.

Digo sempre aos meus alunos que somos também responsáveis pela saúde mental das outras pessoas. Seja praticando a solidariedade, generosidade e cortesia, seja participando de processos educativos contra qualquer tipo de exclusão ou machismo estrutural dentro da sociedade. Aos Governos cabem políticas públicas que não permitam a exclusão sistemática de pobres e vítimas de preconceitos com recursos, capacidade de gestão e campanhas educativas.

Recentemente, tivemos no Brasil a negação do acesso das mulheres pobres a absorventes, a denominada pobreza menstrual. Muitas dessas mulheres acabam abandonando seus estudos por constrangimento ou bullying oriundos. Elas também sofrem impactos tanto na saúde física quanto psicológica decorrentes dessa exclusão. Não há motivos plausíveis que possam justificar tais omissões por parte de qualquer política governamental. Mas esse é apenas um dos fatores entre centenas de outros que marginalizam as pessoas.

A rede de suporte social e familiar é muito importante tanto para incentivar e apoiar a procura por ajuda especializada por psicólogos ou psiquiatras, quanto para estimular a adesão ao tratamento e sua continuidade pelo tempo correto já que algumas doenças mentais podem ser crônicas. E cabe também à esse rede de suporte social campanhas de conscientização contra o estigma que envolve a doente e a doença mental.

No ciclo reprodutivo feminino, algumas mulheres podem ser mais suscetíveis às oscilações hormonais em períodos como pré menstrual, periparto (gestação e pós-parto) e climatério. Quando um médico trata uma mulher ele precisa estar atento a tais fatores hormonais assim como ao histórico de abuso, negligência e violência na infância e adolescência dessas pacientes. Muitas doenças ginecológicas ou endocrinológicas podem aumentar ou agravar os riscos de doença mental também. Importante levarem em conta tais peculiaridades.

Por fim, o pós-pandemia também será um período especial de atenção e cuidados com a saúde mental de todos. Tivemos, mesmo em pessoas não vulneráveis, a eclosão de muito sofrimento psíquico por uma série de fatores como desemprego, isolamento, falta de esperança, perda de entes queridos e da capacidade de qualquer tipo de controle ou planejamento sobre a própria vida ou doença. Grandes desafios virão pela frente e todas as esferas da nossa sociedade precisam se mobilizar. Em muitos Estados Brasileiros o acesso à saúde mental ainda é precário.

Outra questão que muitos gurus adoram discursar é sobre a resiliência, capacidade adaptativa ao estresse ambiental e de “fazer uma limonada através do limão”. Há muitas receitas de bolo. Embora isso possa ser desenvolvido ao longo da trajetória de vida de qualquer indivíduo, sabemos cientificamente que essa capacidade de sobreviver e de se adaptar às situações adversas tem uma base genética- cada qual tem o seu limite. Não se pode jogar toda a responsabilidade nas costas de quem sofre de qualquer transtorno mental como se tudo dependesse apenas das iniciativas e atitudes individuais dele. É como achar que todos treinando alguma modalidade esportiva intensamente seriam atletas de excelência sem levar em consideração questões individuais importantes.

A mensagem otimista é que os tratamentos tanto da esfera farmacológica quanto das diversas modalidades de psicoterapia costumam dar bons resultados devolvendo às pessoas funcionalidade, qualidade de vida e dignidade. Atividades físicas aeróbicas, yoga e mindfulness podem auxiliar bastante.Mas os resultados não dependem apenas do paciente e familiares, todos da sociedade precisam se engajar nessa luta com apoio e atitudes concretas.