Muitas mulheres que sofrem de depressão pós-parto são estigmatizadas e a elas o direito ao tratamento psiquiátrico adequado, com medicamentos e psicoterapia, é negado. Ao longo dos meus 30 anos de psiquiatria perinatal me deparo ainda hoje com muitos preconceitos e desinformações a respeito do tema, como se houvesse a “ditadura da felicidade”. Todos ficam focados apenas nos possíveis efeitos dos medicamentos antidepressivos no bebê através da passagem ao leite materno e se esquecem de avaliar consequências negativas importantes da depressão não tratada no desenvolvimento infantil.

A exposição à depressão materna durante os primeiros meses de vida pode ter um impacto negativo duradouro no desenvolvimento do cérebro, sugere um estudo publicado no American Journal of Psychiatry.

Os resultados sugerem que o período perinatal, particularmente o período pós-natal, pode ser crítico para a prevenção de sintomas depressivos maternos, tendo em vista a associação a longo prazo com o desenvolvimento do cérebro infantil.

O estudo incluiu um total de 3.469 pares de mães e filhos que participaram no Generation R Study, um estudo holandês de base populacional. Zou e seus colegas mediram a depressão materna usando o Brief Symptom Inventory (BSI), um questionário de autorrelato validado, em quatro períodos – durante a gravidez (aproximadamente 20 semanas de gestação), pós-parto (criança de 2 meses), primeira infância (3 anos de idade) e pré-adolescência (10 anos de idade).

Os pesquisadores mediram o desenvolvimento do cérebro das crianças aos 10 anos de idade usando ressonância magnética (MRI); problemas emocionais e comportamentais também foram medidos aos 10 anos de idade usando o Brief Problem Monitor.

Maiores escores de sintomas depressivos maternos em todos os quatro momentos foram associados com menor volume de substância cinzenta total em crianças aos 10 anos. No entanto, após o ajuste para possíveis fatores de confusão, apenas a exposição aos sintomas depressivos maternos quando a criança tinha 2 meses permaneceu significativa. Especificamente, um aumento de um ponto na escala de sintomas depressivos da BSI correspondeu a uma redução de 7,29 cm3 na massa cinzenta total. Crianças expostas ao maior escore de BSI tiveram uma redução de aproximadamente 30 cm3 na massa cinzenta.

Os pesquisadores sugeriram que a redução da massa cinzenta aos 10 anos de idade pode explicar a associação previamente relatada entre depressão materna perinatal e problemas posteriores de atenção infantil.

Os pesquisadores concluíram que os sintomas depressivos maternos no período perinatal, em particular o período pós-natal, são mais propensos a afetar o desenvolvimento do cérebro da criança, o que sugere um período crítico de sensibilidade. Além disso, o estudo sugeriu que o volume de substância cinzenta cerebral pode estar envolvido no mecanismo neurobiológico subjacente à associação da depressão materna com problemas de atenção infantil, raramente relatados, destacando a possibilidade de que intervenções que reduzam a depressão materna possam ter efeitos duradouros no desenvolvimento infantil.

Portanto, é de fundamental e rara importância que essas informações cheguem às mulheres que planejam engravidar e possuem fatores de risco para a depressão perinatal que pode afetar o desenvolvimento cerebral infantil predispondo o bebê inclusive a déficits cognitivos.

Fonte: American Journal of Psychiatry