As mulheres têm uma prevalência maior de distúrbios mentais como ansiedade e depressão ao longo do ciclo vital durante todo o seu período fértil. No caso da depressão, é duas vezes maior e no caso da ansiedade varia entre duas a três vezes na maior parte dos distúrbios ansiosos.

Vários estudos científicos comprovaram que tais diferenças de frequência não estão relacionadas a possíveis artefatos como a maior procura de serviços médicos e aumento do diagnóstico nelas. Há fatores neurobiológicos como uma sensibilidade às oscilações hormonais e outros psicossociais como histórico significativo de diversos tipos de violência e abuso ao longo da vida – principalmente na infância e adolescência. Isso sem contar com os múltiplos papéis, expectativas e exigências que a sociedade faz de forma acentuada nas mulheres.

Muito se tem escrito e falado a respeito do impacto da pandemia da COVID-19 sobre a saúde mental das pessoas.

Pesquisa da Kaiser Family Foundation dos EUA mostra que 53% das mulheres afirmaram que tiveram o emocional abalado ante 37% dos homens.

Impossível não faltarem diversos “gatilhos estressores” decorrentes desse período crítico onde predominam dúvidas, incertezas, apreensões, medos, insegurança e dificuldades inerentes como a sobrecarga de trabalhos domésticos e de home office, dificuldades econômicas e nos cuidados dos filhos com várias atividades online além de maiores riscos de violência doméstica- aumentada no mundo inteiro durante a quarentena. Isso sem contar que a rede de apoio externa que envolve escola, creche, amigos e familiares que costumam colaborar com o cuidado das crianças foi suprimida com a pandemia.

Vejo muitos homens dispostos a ajudar nas atividades domésticas, porém, no geral, na maioria dos lares brasileiros tais tarefas estão concentradas nas mulheres. No caso de bebês em amamentação, é impossível os homens substituírem as mulheres.

É importante termos em mente que tais desdobramentos psicológicos decorrentes da atual pandemia permanecerão em muitas mulheres mesmo após o fim do isolamento social. Algumas mulheres podem conviver por anos, com ou sem vulnerabilidade, com transtornos mentais como fobias, TOC (transtorno obsessivo compulsivo), transtorno de pânico, transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depressão. Uma rede de tratamento e suporte precisará ser estruturada a todas no pós Covid-19, até para que as mesmas não cheguem totalmente esgotadas ao trabalho depois que a vida “normal” retornar.

Por fim, a pandemia é um período de transição de toda a sociedade. É fundamental que desde já sejam desenvolvidas estratégias de melhor gerenciamento do nível de estresse concomitantemente ao aumento da resiliência principalmente na população de mulheres, a mais afetada com certeza. Não sabemos de antemão como será o novo padrão de normalidade pós COVID-19 e precisaremos desenvolver recursos internos e cognitivos para sobrevivermos psicologicamente.

FONTE: Site Psiquiatria da Mulher- www.psiquiatriadamulher.com.br