Burnout é uma condição médica reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças em sua Décima Edição, sob o código Z73.0 e está assim sumariamente definida no idioma original: state of vital exhaustion. Os sintomas de burnout (síndrome de exaustão vital) e de arrependimento em relação à escolha de carreira são comuns entre os médicos residentes do segundo ano (R2) nos Estados Unidos, mas esses sintomas variam de acordo com a especialidade, relata um estudo publicado no Jornal da Associação Médica Americana (JAMA). No geral, 45% dos residentes R2 relataram sintomas de burnout e 14% relataram arrependimento de escolha de carreira.

Segundo os pesquisadores da Clínica Mayo, os resultados sugerem que a prevalência de sintomas de burnout entre médicos residentes pode ser semelhante à dos médicos em exercício (48,8%) e maior do que outros trabalhadores dos EUA (28,4% em 2014 usando as mesmas medidas de item único adaptadas do . Inventário de Burnout de Maslach).

No Brasil, estarei em conjunto com a FEBRASGO avaliando os fatores de risco e prevalência de burnout entre os médicos das áreas de obstetrícia e ginecologia. Cerca de 40% dos médicos dessa especialidade sofrem de burnout por vários fatores: 1) Jornada de trabalho estressante por alta carga de dedicação semanal , baixa remuneração, interferência de planos de saúde em suas condutas, condições de trabalho ruins no setor público e ausência de margem mínima de erro, além de constantes ameaças de processos  e agressões contra os médicos.

Na pesquisa americana, os residentes já haviam preenchido questionários no início da faculdade de medicina e novamente quatro anos depois. Além de coletar informações demográficas gerais, o questionário aplicado durante o quarto ano da faculdade de medicina perguntou aos participantes sobre ansiedade, empatia durante os encontros clínicos e apoio social durante a escola de medicina. O questionário R2 perguntou aos participantes sobre a frequência de sentimentos ou emoções relacionadas com o burnout (“sinto-me esgotado pelo meu trabalho” e “tornei-me mais insensível às pessoas desde que comecei este trabalho”) e arrependimento de escolha de carreira.

Dos 3.574 residentes incluídos na análise, 1.615 (45,2%) relataram pelo menos um sintoma de burnout uma vez por semana. Em termos de carreira e escolha de especialidade, 14,1% dos residentes relataram que “definitivamente não” ou “provavelmente não” optariam por se tornar médicos novamente, e 7,1% indicaram que “definitivamente não” ou “provavelmente não” escolheriam a medicina.

Os treinamentos nas áreas cirúrgica e de emergência (em relação à medicina interna) e sexo feminino foram independentemente associados a um Risco Relativo (RR) mais alto para sintomas de burnout relatados.  A maior ansiedade e a menor empatia durante o 4º ano da faculdade de medicina também foram associadas a RRs mais elevados para sintomas de burnout relatados durante a residência.

Em um artigo separado no JAMA, Lisa S. Rotenstein da Harvard Medical School e colegas descrevem os resultados da revisão sistemática de estudos sobre a prevalência de burnout em médicos (médicos em treinamento não foram incluídos) publicados antes de junho de 2018. Dados de prevalência de burnout, extraídos de 182 estudos envolvendo 109.628 médicos em 45 países, foram incluídos na análise.

A revisão revelou notável variabilidade nas estimativas publicadas de prevalência de burnout, com estimativas de esgotamento geral variando de 0% a 80,5%. Essa ampla gama refletiu a heterogeneidade marcante nos critérios usados ​​para definir e medir o burnout na literatura, com pelo menos 142 definições exclusivas para atender aos critérios gerais de subescala de burnout ou burnout identificados.

Os resultados destacam a importância de desenvolver uma definição consensual de burnout e de padronizar ferramentas de medição para avaliar os efeitos do estresse ocupacional crônico sobre os médicos, concluíram os autores do estudo.

Portanto, é importante que haja uma padronização dos métodos de pesquisa envolvendo a Síndrome de Burnout – em aumento progressivo entre os médicos do mundo inteiro, inclusive do Brasil. Claro que outros profissionais também podem sofrer de burnout em índices variáveis, mas voltando à classe médica o trabalho de prevenção deve ser iniciado já durante a faculdade de medicina onde estudantes estressados cada vez mais por diversas pressões têm inclusive tentado o suicídio cada vez com maior frequência. O Burnout pode ter associação com quadros de depressão, ansiedade, dependência química e suicídio sendo uma síndrome que deteriora as relações profissionais, pessoais e familiares. E pode levar o médico a um aumento considerável de erros profissionais com prejuízos de toda a sociedade.