Atualmente, 81 países determinam a fortificação de produtos de grãos com ácido fólico para diminuir o risco de defeitos do tubo neural no feto em desenvolvimento. Isso ocorre inclusive no Brasil, embora eu desconheça que nível de controle é realizado para a checagem do cumprimento dessa determinação no nosso país onde esse tipo de controle costuma ser precário.

Dados epidemiológicos sobre doença mental grave sugerem efeitos potencialmente mais amplos da exposição pré-natal ao folato desenvolvimento cerebral pós-natal, mas esta ligação permanece sem fundamento por evidência biológica. Daí surgiu a idéia de um estudo inédito publicado recentemente na conceituada Revista Jama Psychiatry.

O objetivo de tal estudo foi avaliar as associações entre a exposição fetal ao ácido fólico, maturação cortical e risco psiquiátrico na adolescência. Teria importância?

Um estudo clínico retrospectivo de coorte observacional foi realizado no Massachusetts General Hospital (MGH) entre 292 jovens de 8 a 18 anos de idade nascidos entre janeiro de 1993 e dezembro de 2001 (inclusive na época da implantação de fortificação com ácido fólico nos EUA em 1997).

Foram obtidos resultados de ressonância magnética em 3 grupos pareados por idade com base na data de nascimento e nível relacionado de exposição pré-natal com ácido fólico (nenhuma, parcial ou completa). A ressonância magnética foi realizada entre janeiro de 2005 e março de 2015. Importante foi a comparação entre grupos de jovens nascidos no período anterior à obrigatoriedade de fortificação dos grãos com ácido fólico (1983-1995) com jovens nascidos no período posterior (1992-2003)

Diferenças na espessura cortical entre os jovens não expostos, jovens parcialmente expostos e totalmente expostos (MGH) e associações subjacentes entre a idade e espessura cortical (todas as coortes) foram encontradas. A análise da coorte também examinou a associação das inclinações de espessura corticais com a probabilidade de sintomas psicóticos.

A exposição ao ácido fólico aumenta a espessura cortical nas regiões frontal e temporais do cérebro levando também à redução do adelgaçamento cortical que ocorre com o passar dos anos. Perfis de desbaste mais planos nas regiões frontal, temporal e parietal foram associados com menor probabilidade de sintomas do espectro da psicose.

Os resultados deste estudo sugerem uma associação entre exposição gestacional à fortificação de produtos de grãos com ácido fólico e alterações desenvolvimento e, por sua vez, com redução do risco de psicose em jovens. Esses dados têm grande importância em aspectos envolvendo saúde pública na política de prevenção de transtornos mentais graves e irreversíveis em jovens. Na minha opinião, o uso de ácido fólico deveria até ser rotineiro não apenas em grávidas mas em todas as mulheres em idade reprodutiva no Brasil. E isso deveria, é claro, ter um amplo controle por parte do Ministério da Saúde mapeando as diferentes regiões ou Estados com suas peculiaridades e especificidades. Quando falamos em saúde mental, qualquer iniciativa que ofereça alguma chance de prevenção é essencial.

FONTE: JAMA Psiquiatria. doi: 10.1001 / jamapsychiatry.2018.1381
Publicado on-line em 3 de julho de 2018.