As diferenças entre o alcoollismo feminino e o masculino têm sido cada vez mais estudadas. Deparo-me, na minha prática clínica, com um número cada vez maior de mulheres alcóolicas em todas as faixas etárias. Nos últimos 10 anos houve um aumento de cerca de 30% no consumo de álcool entre as mulheres brasileiras e na pandemia muitas delas iniciaram o consumo abusivo.

Um detalhe importante é que a preocupação não se refere apenas ao universo de mulheres dependentes e sim também ao universo expressivo de mulheres que bebem de forma nociva ou inadequada, mesmo que esporadicamente. O uso esporádico de 4 doses de álcool por ocasião (uma dose é equivalente a 350 ml de cerveja, 120 ml de vinho ou 40 ml de destilado e contém 10-14 gramas de álcool puro) já oferece grandes riscos às mulheres.

A mulher que bebe inadequadamente, mesmo sem desenvolver dependência, está mais exposta a acidentes e a violência doméstica, tem mais dificuldade para engravidar, mais incidência de infarto do miocárdio, gastrite, pancreatite e hepatite alcoólica, entre outros efeitos.

Na atualidade, há um aumento considerável de mulheres alcoolistas. Até uma década atrás, aproximadamente, havia sete homens para cada mulher com alcoolismo e no momento o padrão feminino se aproxima do masculino. Cinquenta por cento das mulheres são abstêmias. E, das que bebem, o consumo é moderado na maior parte dos casos. Mas uma em cada quatro tem um consumo pesado, bem acima do razoável. E cerca de 2% das que bebem desenvolvem dependência.

As consequências deletérias da ação do álcool no organismo feminino costumam ser mais drásticas e rápidas. O organismo feminino é mais sensível aos efeitos do álcool porque a mulher tem menos enzimas que metabolizam o álcool e, em consequência, uma menor capacidade de processar o produto final da substância, que é menos tóxico, ficando mais tempo exposta aos subprodutos intermediários, mais deletérios à saúde. As mulheres também apresentam maior distribuição de gordura e menor volume de líquido corporal e tais fatores indicam que tanto a dependência quanto o abuso se desenvolvem em menos tempo. Outro detalhe importante do alcoolismo feminino é que geralmente ele vem mais acompanhado de doenças mentais como depressão e transtornos de ansiedade. Mulheres deprimidas ou ansiosas podem até ser mais vulneráveis ao uso abusivo de álcool embora tal relação não seja obrigatória.

Mulheres costumam, no geral, ter dois padrões de consumo de álcool. Mulheres climatéricas (geralmente acima dos 40 anos de idade) costumam beber isoladamente para alívio de uma dor psíquica e utilizam o álcool como meio de enfrentamento de seus conflitos. Muitas dessas mulheres sentem-se pressionadas pelos diversos papéis sociais, familiares e profissionais e buscam autonomia e isso foi exacerbado nesta pandemia da Covid-19. No início, essas mulheres referem que o álcool é uma fonte de alívio e que até ajuda na melhora da insônia e da ansiedade. Já as mulheres mais jovens e de centros urbanos costumam beber em grupo de amigas e em reuniões em bares e restaurantes para a busca simples de prazer e interação social. Sempre vemos jovens nas baladas clandestinas interagindo de forma eufórica como se vivessem em outro planeta.

Por fim, um alerta às grávidas: a ciência médica não aconselha jamais o uso de álcool na gestação mesmo em níveis baixos ou de consumo social. Não há margem de segurança e o álcool pode comprometer o desenvolvimento fetal levando a uma série de malformações congênitas.

FONTE: Programa Saúde Mental da Mulher (ProMulher) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP coordenado pelo Dr Joel Rennó Jr.