O conceituado tenista norte-americano Mardy Fish fez um depoimento surpreendente, há alguns anos sobre sua vida pessoal durante o US Open de Nova York.  Escancarou ao mundo seu sofrimento decorrente das batalhas contra um adversário muito mais temido do que Roger e outras feras do Circuito Mundial do Tênis: a ansiedade.

Alertou a todos ao relatar, corajosamente, sobre a sua história de vida dos últimos anos onde seus sintomas de ansiedade o envolveram em uma espécie de espiral crescente e incontrolável justamente quando sua carreira engrenou após uma série de mudanças em dietas, rotina de treinamentos e dedicação- chegando até a estar entre os 8 melhores tenistas do mundo. Embora a ansiedade atinja 1 em cada 5 pessoas de forma mais intensa, raramente é diagnosticada no início, as pessoas a confundem com estresse do cotidiano onde metas profissionais cada vez mais elevadas vão sendo impostas por terceiros ou por nós mesmos. E como doença mental infelizmente ainda é considerada apenas para os fracos, todos evitam se aprofundar no assunto, de forma consciente ou inconsciente.

O Brasil é o campeão mundial em número de casos de pessoas com ansiedade. As mulheres durante a atual pandemia foram as mais afetadas por ansiedade segundo uma pesquisa brasileira do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HC-FMUSP) e publicada agora no periódico Plos One em fevereiro de 2021. Segundo os dados dessa pesquisa, 35% das mulheres avaliadas sofriam de ansiedade e as justificativas, em parte, referem-se ao cumprimento de dupla jornada, ao acompanhamento escolar dos filhos, à violência doméstica aumentada além de questões econômicas, preocupações com o coronavirus e familiares adoecidos. Interessante observar também que mesmo as mulheres que moravam sozinhas e sem filhos também sofreram bastante com a ansiedade. Nesse subgrupo, muitas delas estavam desempregadas, tinham histórico de doenças crônicas (25,9%) e relataram ter tido contato com pessoas com diagnóstico de COVID-19 (35,2%). Uma das hipóteses levantadas foi que a pandemia tenha deixado esse grupo mais vulnerável a um estado de falta de perspectivas e incertezas quanto ao futuro, o que teria causado mais sensações de desconforto, angústica, ansiedade e desamparo.

Na nova classificação do DSM-5 (Manual Diagnóstico dos Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana) o capítulo sobre transtornos de ansiedade reúne um grupo de apresentações nas quais a ansiedade, o medo e esquiva fóbica são proeminentes. Entre os diagnósticos psiquiátricos mais prevalentes, esses transtornos também podem estar entre os mais difíceis de se diagnosticar principalmente em homens que costumam minimizar os sintomas. Imaginem como um homem e atleta de alta performance como o Mardy Fish se sentiria constrangido ao admitir publicamente sua “fraqueza”, como ele mesmo diz, em um universo onde a obrigação é ser “mentalmente durão”. E temos ainda o fato de que a ansiedade, o medo e a esquiva são respostas normais e adaptativas em muitas situações, levando a uma ambiguidade inevitável na avaliação de indivíduos com sintomas leves – mas que podem evoluir ao longo do tempo – como aconteceu com o tenista.

As emoções relacionadas à ansiedade podem ser vivenciadas mais proeminentemente como sintomas somáticos. O medo- uma reação normal a uma ameaça iminente real ou percebida- está quase sempre associado à hiperexcitabilidade do sistema nervoso autônomo; essa hiperexcitabilidade pode ser difícil de ser identificada ou descrita pelos pacientes. De modo semelhante, a ansiedade- experiência emocional de medo não acompanhado por uma ameaça evidente- pode ser sentida como um tensão muscular e um estado de alerta, os quais podem se integrar imperceptivelmente ao pano de fundo da situação em que se encontra alguém com nível de ansiedade cronicamente elevado.

Uma terceira complicação é que os transtornos de ansiedade costumam ser associados a outros transtornos como transtornos de humor e da personalidade, o que pode dificultar a observação adequada das manifestações de cada diagnóstico.

Por fim, apesar de vários avanços, o campo da psiquiatria ainda não está próximo da descoberta das causas de tais transtornos de ansiedade. Há evidências científicas fortes da presença de componentes biológicos e psicossociais envolvidos.

O tão terrível pânico, que além de vários sintomas somáticos (palpitações, sudorese, formigamentos pelo corpo, sensação de nó na garganta com falta de ar ou sufocamento, náuseas, diarréia, tremores e outros), vem acompanhado de um medo terrível de morrer ou perder o controle – o que no início leva várias pessoas a pronto-socorros a fim de descobrir a causa desse grande mal estar. Pelo atual DSM-5, entende-se que os ataques de pânico ocorrem como parte de um amplo espectro de diferentes diagnósticos psiquiátricos e não apenas do Transtorno de Pânico (uma pessoa com depressão ou ansiedade generalizada pode ter ataques de pânico no curso da doença). Quando ataques de pânico persistentes induzem um temor contínuo e significativo de ocorrência de mais ataques, o transtorno de pânico é o diagnóstico mais provável. Segundo Mardy Fish, tudo piorou quando ele teve a primeira crise de pânico na quadra de jogo – antes os ataques se restringiam à vida externa apenas e os jogos eram enfrentados normalmente sem medo. A partir desse momento, imaginem os pensamentos e somatizações que esse atleta vivenciava, de forma antecipatória, toda vez em que tinha que enfrentar um jogo decisivo de grande SLAM.

Muitos transtornos de ansiedade costumam dar os primeiros sinais no início da infância ou mais tarde na adolescência e os pais devem estar atentos. Adolescentes ansiosos costumam ter rendimento escolar menor e serem mais suscetíveis ao uso abusivo de álcool e drogas para efeito “anestésico” da dor da alma ou controle da agitação e medo. Na atual pandemia, com o aumento dos quadros de ansiedade e depressão tem havido crescimento perigoso do consumo de álcool, cigarro e “calmantes” tanto em homens quanto em mulheres.

Pessoas com traços de personalidade como rigidez, autoestima baixa, perfeccionismo, autocobrança excessiva, baixo limiar à frustração e que tiveram exemplos domésticos de convivência com familiares ansiosos podem ser mais vulneráveis ou predispostas. No início, onde os quadros de ansiedade costumam ser leves, técnicas de relaxamento ou meditação, psicoterapia cognitivo-comportamental e atividades esportivas podem ser fundamentais no auxílio da melhora impedindo, em muitas situações, a evolução para quadros mais graves no futuro. Até mesmo o exercício da espiritualidade, mudanças de rotina de vida e atitudes altruístas podem ajudar no alívio nesse estágio inicial.

Precisamos, por fim, desmistificar o conceito errôneo de que os transtornos mentais só atingem os “fracos”.  Como diz o tenista Mardy Fish enfrentar a doença mental é uma prova de força. Há vários fatores envolvidos na etiologia, incluindo os biológicos, psicológicos e até sociais e a complexa interação entre eles pode dar resultados inesperados ou imprevisíveis. Qualquer um de nós pode sofrer de transtorno de ansiedade ao longo da vida porque o que difere é apenas o limiar de cada pessoa para o desencadeamento da doença.