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                                                                                                                                                  Turner. Ulysses Deriding Polyphemus. Fonte: www.wga.hu

Como seres carentes que somos, temos muitas necessidades. De um lado as necessidades naturais, das quais não podemos fugir, como as de comer, beber, fazer sexo; de outro, as artificiais, criadas por nós mesmos, das quais podemos fugir, mas que com o tempo, de tão exigentes, metamorfoseiam-se em necessidades naturais. Tal metamorfose,  conforme a pessoa, pode assumir a característica de vício.

Até pelo fato de servir-me esporadicamente de uma rede social para divulgar os meus textos do estadao.com.br, pude meditar sobre uma necessidade artificial que se tornou natural. Refiro-me à dependência psíquica de muitas pessoas em relação às redes sociais. Quantos dos leitores deste texto conseguiriam ficar uma semana sem acessá-las?

A dose de ansiedade que toma conta de muitos, antes de acessar uma rede social, equivale à de alguém com dependência química, antes da sua dose diária de substância psicoativa que lhe dá sentido à vida.

Esse novo vício, em vez de aproximar, distancia as pessoas. Nos restaurantes, em casa, na praia, nas universidades, no encontro dos namorados, dos amigos… quem já não presenciou a cena de personagens da vida como ela é, por exemplo numa mesa de restaurante, um de frente para o outro, com os olhos fixos nos smartphones?  E que dizer daquele funcionário que atende mal, cara fechada, só porque estamos atrapalhando a sua olhadela nas novas mensagens recém chegadas? A vida real foi hospedada na vida virtual.

Vício moderno esse cuja droga percorre um circuito parecido ao das drogas tradicionais (ilícitas). De fato, o traficante dessa nova necessidade usa os mesmos expedientes do traficante da droga tradicional, ou seja, vicia cedo as crianças e os adolescentes, para assim ter um mercado garantido. Manda mensagens caso alguém fique algum tempo sem “usar a rede”, como o traficante de morro explode rojão para avisar a sua clientela que a maconha ou a cocaína etc. chegou.

E assim como o vício tradicional, esse vício moderno pode paulatinamente destruir relações e reputações. Difícil imaginar que um “usuário de rede” conviva afetivamente muito tempo com quem não é usuário: os dois têm de ser usuários para consumirem juntos, do contrário um não vai “entender” o outro.

Acho essa reflexão extremamente oportuna, caro leitor, pois trata-se de uma questão de saúde, e o que me levou a ela foi observar como esse vício moderno, além de isolar as pessoas, com a ilusão de que as aproxima, torna-as monossilábicas e encasteladas. Os falantes, cortam-se a língua, os expansivos, contraem-se,  e no preocupante caso das crianças e dos adolescentes que, com absoluta certeza, nele caem, observa-se déficit de atenção com o entorno social: raramente conseguem sustentar um diálogo real de alguns minutos. Mesmo os adultos, quando usuários compulsivos das redes sociais, com o tempo tornam-se também monossilábicos, diminuindo a capacidade de participar de um bom, culto e saboroso diálogo.

Repito aquela pergunta inicial: quantos dos que leem este texto conseguiriam ficar uma semana sem acessar as redes sociais?

Certa vez conheci uma pessoa, ansiosa por acessar um sítio de relacionamentos, que me disse que estava tentando, ao menos por um único dia, não acessá-lo. Falou-me do sofrimento para conseguir levar adiante a sua promessa. Há aqueles casos de quem consegue abandonar o uso compulsivo, porém a abstinência é breve, e o vício ressurge com impiedosa virulência.

O gênio do futebol Maradona, que caiu na dependência da cocaína, disse, depois de muito tratamento para desintoxicação, que jamais se livraria do fantasma da sua “branquinha”, apenas passaria a vida policiando-se contra a recaída nos braços dela. Ulisses, personagem do poema épico Odisseia de Homero, navegando de retorno para a sua pátria Ítaca, e para escapar do canto sedutor das sereias que atraiam os marinheiros para uma região rochosa e assim afundavam as suas embarcações, amarrou-se ao mastro da sua nave e tampou os ouvidos dos seus auxiliares com cera. Desse modo, estes não poderiam ouvir o canto daquelas sedutoras e traiçoeiras habitantes do mar, e nem a Ulisses, caso este pedisse para ser desamarrado. Fazendo assim, Ulisses livrou a si e aos seus companheiros da morte certa. Teve, então, a certeza de que retornaria a Ítaca, para os braços da sua amada esposa Penélope, que virtuosamente o esperava.

Alguém ousa amarrar-se a algum mastro para, como Ulisses, escapar desse novo canto das sereias?