Viajar faz bem aos olhos. Ora, se os olhos, num conhecido lugar-comum poético, são as janelas da alma, então a viagem faz bem à alma.

Costumo dizer que a viagem nos torna antropólogos sem o sabermos. Tentamos conhecer as novas pessoas, o seu lugar, a sua cultura, os seus costumes, a sua culinária, e fazemos comparações entre o que se passa no novo destino e o que se passa na nossa origem.

Outrora, num tempo sem câmera fotográfica, os livros de relatos de viagem eram muito apreciados, aliás como ainda o são hoje em dia. Mas naquele tempo não havia a facilidade de se obter a imagem do destino, com o que os relatos faziam a imaginação do leitor trabalhar com capacidade máxima.

O fato de nos tornarmos antropólogos, de compararmos a vida das pessoas, é algo aguçado pelo desenraizamento que toda viagem, por mais curta que seja, provoca. Procuramos, por conta disso, adentrar novos terrenos, como que procurando segurança, e isso lapida a nossa percepção.

Descobrimos as virtudes dos habitantes do lugar, mas também os seus vícios; e fazemos o mesmo, com olhos nas costas, em relação ao lugar de onde partimos. Até por isso, a melhor viagem é aquela que foge do turismo de massa, já que este padroniza tudo, até o espanto diante das coisas e dos outros.

A bela viagem é a que nós mesmos arquitetamos (não a que nos foi arquitetada), porque deixa espaço para o desenraizamento que precede as autênticas descobertas. E, claro, para as conversas com desconhecidos, que podem revelar seus mundos, com suas alegrias e tristezas, enfim, pode-se viver um pouco a vida local.

Na viagem, curiosamente, tudo que é visto pela primeira vez de fato assume um ar pitoresco, que não é identificado por aquele que todo dia vê as coisas que agora nos encanta, mas que a ele tornaram-se despercebidas, sumidas que foram do seu campo visual, já que incorporadas no seu cotidiano.

Quando a viagem é feita com essa ingenuidade, ela de fato é um bálsamo para o espírito, e dela voltamos, não embalsamados ao modo de múmias, mas renovados.