Em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, fui participar de uma defesa de mestrado sobre a filosofia de Schopenhauer. Passeava pelas ruas da cidade tentando construir a minha cidade, isto é, a imagem daquela cidade para mim, o que no fundo a transformaria numa São Leopoldo real. Diga-se aqui que uma das coisas boas no magistério universitário é sermos convidados para participar de bancas de defesa de mestrado ou doutorado em outras cidades, ou participar de congressos acadêmicos, pois assim conhecemos lugares diferentes, pessoas diferentes, culturas regionais diferentes, enfim, nos transformamos em antropólogos e aprendemos a saudável arte da tolerância.

Fui passear pelas ruas de São Leopoldo. Avistei um cachorro negro, olhos claros, tomando sol em frente à rodoviária, faminto, sem a atenção de pessoa alguma. Que fazer? Comprei-lhe dois espetos de frango, embora eu seja vegetariano. Dei-lhe. Apesar da sua tristeza de cachorro de rua, sem companhia e sem carinho, vivendo heroicamente o seu abandono, logo abanou o rabo para mim, contente. Comeu os espetos. Tive de voltar para o hotel onde me hospedava. Não olhei para trás, pois sabia que ele estava me olhando, e este olhar de apelo seria dolorido. Naquelas circunstâncias infelizmente não podia fazer mais do que havia feito.

 

[São Leopoldo-RS. Fonte: Google imagens]

Uma bela cidade – e isto vale para qualquer cidade – não combina com animais abandonados; do contrário a sua beleza é maculada.

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O termo sfumato do título deste texto remete à técnica de pintura que dilui as formas nítidas dos objetos, e que, combinada com a técnica de luz e sombra (claro-escuro) imprime uma atmosfera volumosa no espaço pictórico de um quadro, como se os objetos ali estivessem envoltos numa espécie de bruma. Tudo isso contribui também para a profundidade da composição, para intuirmos três dimensões num espaço bidimensional. Um dos melhores exemplos dessa técnica encontra-se na famosíssima “Mona Lisa” ou “Gioconda” de Leonardo da Vinci.

 

[Leonardo da Vinci. “Mona Lisa”. Fonte: Google imagens]

 

Nunca esqueci daquele abano de rabo do Cachorro de São Leopoldo, que vive esfumado em minha memória. Que encontre uma boa alma que o adote, ou pelo menos que não seja maltratado pelos ignorantes e insensíveis.