Baleia franca em Santa Catarina. Fonte: Google imagens

Há um tipo de turismo no Brasil que eu recomendo enfaticamente, ninguém vai se arrepender, pela aventura ímpar que proporciona. Trata-se da observação de baleias. Aqui em Santa Catarina são as assim chamadas baleias francas, que geralmente no fim de junho e começo de julho chegam ao litoral catarinense para darem à luz aos seus filhotes. Vêm em gupos, das proximidades da Antártica, em busca de águas menos frias. Nosso inverno aqui é o verão delas, que usufruem intensamente por cerca de três meses.

Da primeira vez que as avistei, foi em Imbituba, um dos lugares prediletos delas. Lá hospedei-me numa pousada pertencente a uma escritora de livros didáticos, que ganhou muito dinheiro durante o regime militar com uma obra sobre educação moral e cívica, e comprou a sua propriedade, no alto de um morro, na Praia do Rosa.

Pegamos um barco de resgate de náufragos, bastante seguro, partimos para as proximidades do Porto de Imbituba, navegando ao encontro das baleias e dos seus filhotes. Aqui elas encontram águas apropriadas para dar à luz aos seus rebentos. Os machos retornam à Antártica antes, após o acasalamento com as futuras mães. Os machos vêm só para reproduzir. Incrível, o masculino é de fato desprezível depois da fecundação, em quase toda a natureza; geralmente após o nascimento, o relevante é a mãe. E isto vale para o humano também! Mãe tem de ficar um bom tempo cuidando da criança.

O barco subia e descia o mar; eram montanhas de água, ventava forte, e, numa escala ascendente de zero a cinco de perigo, estávamos em quatro. Paredões de água à direita, à esquerda, à frente, três vezes mais altos que o barco. Por vezes as ondas lambiam salgadamente os nossos lábios. Mas o barqueiro era bom, e parecia garantir-nos racionalmente que a nossa vida não era tão frágil quanto sentíamos. E lá íamos, literalmente ao sabor dos ventos, na espectativa do grande encontro.

Chegamos. Motores do barco desligados. Espectativa. Onde estão as prometidas baleias? Lá!

Aparecem pontos negros aqui e ali. Num primeiro momento manchas, mas depois ganham contornos quando se aproximam, e uma mostra toda a sua imponência ao aproximar-se e passar debaixo do barco, parecia brincar. Outra passa a nove horas (em linguagem náutica: basta imaginar um relógio, as 12 horas são a frente ou proa do barco). Quanta grandeza, contrastada com sua serenidade, no avistamento recíproco. Dificilmente se encontra um animal mais dócil e pacífico.

Não há palavras nem imagens que expressem o momento místico do encontro. O mar agitado, perigoso, sublime – tudo isso contrastando com a paz daquele instante de ligação entre observador e observado, que também nos observa com seus olhos meigos. Harmonia cósmica. Senti-me, e todos ali unidos aos adoráveis cetáceos.

[Em tempo: o turismo de avistamento de baleias foi recentemente suspenso pela justiça federal em Santa Catarina, devido a uma ação do Sea Sheperd contra o ICMBio, alegando que este não tinha estudo de impacto ambiental nem condições de fazer a boa fiscalização do avistamento. Em princípio, concordo com a decisão, embora ela puna aqueles que respeitam a recomendação dos próprios pesquisadores, ou seja, não estressar o animal e desligar o motor da embarcação a 50 metros de distância. Ademais, o avistamento bem conduzido e respeitoso, conta em favor da própria defesa das baleias, pois conquista os observadores para a causa da proibição da sua pesca. Mas, decerto, tudo será melhor feito com o estudo de impacto ambiental]