Assisti recentemente a uma interessante entrevista do fotógrafo Sebastião Salgado a Roberto D’Avila. Sebastião Salgado é, de fato, um dos grandes fotógrafos contemporâneos. Fotografia significa “escrever, grafar com a luz”, o que o artista fez belamente em seu recente livro “Gênesis”, no qual vemos lugares inóspitos, inexplorados do globo terrestre, com sua exuberante fauna, flora, águas. Lugares quase intocados pela civilização.

Salgado conta em dado momento da entrevista uma coisa curiosa: para ele, os animais, ao contrário do que se pensa, têm racionalidade, isto é, razão como faculdade de conhecimento. Relembra dois casos de sua experiência fotojornalística. Em Galápagos, quando tentava fotografar uma nativa tartaruga gigante, esta ficou arredia, porque decerto guardava lembranças do humano como seu predador; após algumas tentativas, ele resolveu rastejar, mostrando assim uma posição de igualdade; a tartaruga então aproximou-se, olhou nos olhos dele, deixando-se fotografar;  houve ali, pois, uma comunicação entre duas espécies, e a mensagem foi de paz. Em outro caso, agora no Pantanal de Mato Grosso, tentava fotografar jacarés; os bichos porém ficaram arredios e pularam no rio; ele serviu-se da mesma diplomacia que empregara com a tartaruga de Galápagos, rastejou, aproximou-se dos bichos e estes, então, compreendendo a atitude, voaram da água, posando-pousando para a câmera; o fotógrafo chega a dizer que os bichos davam risadas enquanto ele clicava.

A razão dos animais foi algo suspeitado pelo filósofo Hume, que numa de suas obras mais importantes, o “Ensaio sobre o entendimento humano”, dedica um capítulo especial à razão dos animais. Portanto, entenda-se, os animais não apenas sentem dor como os humanos, mas como estes têm formas de raciocínio e linguagem, abrindo assim a possibilidade de comunicação e entendimento entre espécies humana e não-humanas.

Tempos depois, Schopenhauer, em sua obra máxima “O mundo como vontade e como representação” chamará essa razão animal, a que Hume se refere, de “entendimento” intuitivo, reservando o termo razão exclusivamente para a capacidade do ser humano de formar conceitos, os quais são expressos em palavras, logo numa língua. Nós temos linguagem e língua; os animais têm linguagem.

Tanto Hume quanto Schopenhauer reconhecem, por conseguinte, o poder da inteligência e da comunicação animal. Schopenhauer cita como uma prova de que os animais possuem entendimento, o caso de um elefante recém chegado da África que acompanhava uma caravana europeia (século XIX) e que se recusou a atravessar uma ponte, pois ao aproximar-se e colocar um dos pés nela, calculou (entendeu) que o acréscimo do seu peso faria a ponte cair.

Cachorros também calculam danos a si, ao evitarem pular de certas alturas. Muitos outros casos podemos mencionar de animais que comprovariam um entendimento que calcula atitudes, o que nos leva a concluir que podem sim de algum modo comunicar-se claramente conosco. Não é preciso ser um Sebastião Salgado nem um Francisco de Assis para compreender a possibilidade de entendimento recíproco entre espécies.

Curioso é que Salgado é um artista que reviu sua posição no que se refere ao valor da natureza, atribuindo-lhe agora uma dignidade que outrora ela não possuía em seu trabalho. Dessa forma, faz uma salutar revisão de concepção de mundo, para o que decerto contribuíram aqueles risos de jacaré.