E.Temoteo/Futura/Estadão/beagle resgatado em S. Roque

Ainda sobre o caso dos beagles de São Roque, perto de Sorocaba, tão divulgado pela imprensa.

Quem não se lembra das caras caninas assustadas, resgatadas das suas jaulas do Instituto Royal, onde eram usados em experimentos farmacêuticos ? Passado o calor da discussão, cabe agora uma “animalreflexão” sobre o tema.

Por algum tempo trabalhei na CEUA da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), ou seja, na Comissão de Ética sobre o Uso de Animais, que todas as universidades que usam animais em pesquisas devem possuir. Pelas CEUAs passam milhares de protocolos todos os anos, pedindo animais para uso em testes científicos. As universidades costumam ter um biotério, que abrigam inumeráveis bichos, especialmente camundongos, vivendo  em espaço reduzidíssimo; os camundongos são os mais usados nas pesquisas, mas há outros de grande porte, como os cachorros. Assim, se o protocolo é aprovado, o biotério fornece os bichos (às vezes são solicitados 3000 camundongos). Tudo em nome da ciência!

Vou ser direto ao assunto. Tais CEUAs não servem para proteger os animais, são viciadas, visto que majoritariamente compostas por pessoas da área científica, de modo que de partida os animais perdem, pois a ciência contemporânea, aliada à indústria, não se desfez do paradigma cartesiano-kantiano de que os animais são coisas, ou seja, meros meios para fins os mais variados; de modo que de “ética”, essas comissões têm muito pouco, são antes comissões de USO de animais.

Outra coisa que observei  é que a maioria dos projetos para uso de animais é repetitiva, com pequenas alterações. Um vício de procedimento! E por quê? Em muitos casos para que uma nova patente de remédio seja feita, e assim a indústria farmacêutica ganhe dinheiro com o suposto novo remédio testado em animais. Noutros termos, pura repetição em nome do dinheiro, o que equivale a dizer que os animais foram anti-eticamente liberados para os experimentos.  

O princípio mimético que norteia tais pesquisas, como as de medicamento, ou seja, que o organismo animal reagiria a um produto farmacêutico (ou cosmético) de modo parecido ao organismo humano, é falho, porque nunca se sabe ao certo se a imitação é aceitável, vale dizer, os humanos reagimos de modo diferente aos medicamentos: o melhor exemplo é o da penicilina: mata (choque anafilático) ou salva uma pessoa. Imaginem que quando foi descoberto, este antibiótico teria sido testado num dado animal, que reagiu bem, não morreu;  Fleming, o seu descobridor, concluiria daí que a penicilina agiria do mesmo modo em todo organismo humano… Correto? Não. Que o diga a família de quem morre por choque anafilático. O que quero dizer aqui é que o princípio mimético que norteia o uso de animais – o remédio que vale num animal vale num humano –  não é um bom argumento para justificar as pesquisas de medicamentos em animais. Trata-se de um falácia, ou seja, filosoficamente falando, um falso argumento para enganar. Popularmente falando: conversa fiada.

Claro, se for provado que o experimento reduz o sofrimento, seja de humanos ou de animais, e o sofrimento do animal cobaia é menor que o sofrimento das vidas que o experimento procurará ajudar, compreende-se a situação; mas uma prova dessas é rara, como no caso das pesquisas em macacos para transplantes de coração: mas depois disso, não houve mais necessidade de repetir certos procedimentos; neste caso, é hoje inaceitável repetir o que já foi feito e deu certo.

Aqui o meu leitor chega no ponto principal do que é discutido, vale dizer,  boa parte das pesquisas científicas com animais são desnecessárias. Portanto, em termos éticos, são inaceitáveis, sobretudo quando servem só para enriquecer pesquisadores com suas patentes e fazer caixa tanto da indústria farmacêutica quanto da de cosméticos.

Outro caso questionável de uso de animais se dá nas aulas de medicina. Para que liberar cachorros para serem esquartejados em aulas práticas, se o bom cirurgião aprende é com o cirurgião-chefe, seu mentor e orientador, na prática das salas de cirurgia? É como o bom piloto de avião, que aprende primeiro a pilotar em simuladores de voo, e depois com o seu instrutor, em seguida com o comandante.

A ciência não é um valor absoluto.  Temos de abrir a sua caixa preta.  Desconfiar da ciência é salutar, já que de um lado ela serve aos interesses financeiros da indústria, de outro aplica o acima duvidoso princípio mimético, e, na dúvida, pró-réu.

Vida longa aos beagles!