O futebol é arte; é terapia. Mas uma terapia na qual o riso de uns significa, necessariamente,  o choro de outros. O futebol tem um quê de tragédia. E desta poucos entendiam tão bem quanto os gregos; como o estagirita Aristóteles.

Aristóteles observou que o espetáculo trágico é uma espécie de catarse, de cura das emoções ruins. Nesse sentido, primeiro eleva a tensão do espectador, para depois descarregá-la, com consequente alívio corporal e espiritual.

Em verdade, toda arte, não só a trágica, por proporcionar alívio, é elemento de equilíbrio social. Não à toa, arte e religião, que são a nossa ligação com o universo como um todo, sempre andam de dedinhos dados. Daí Schopenhauer ter dito: “Tirando-se os poucos momentos de arte, religião e amor puro, que nos resta senão uma série de pensamentos triviais?”

Sendo o futebol arte trágica, qual a minha leitura do Brasil 1 x 2 Bélgica dessa Copa do Mundo de futebol na Rússia?

Fiquei com pena do povo brasileiro, num jogo que, de nossa perspectiva, merecíamos até ganhar; porém da perspectiva dos deuses, não.

De fato, já no início do jogo os deuses conspiraram. Primeiro, a bola na trave do brasileiro Thiago Silva que não entrou no gol da Bélgica. Depois a bola no ombro direito do brasileiro Fernandinho que entrou no gol do Brasil. Uso repetitivamente aqui termos relacionados ao Brasil para que se note como os deuses do futebol já enviavam sinais desde o início do jogo de que queriam punir a seleção, e, por extensão, os brasileiros. Mas por quê?

Tanto mais cruel esse desígnio porque o futebol, quando a seleção ganha a Copa, é momento de suprema catarse nacional, de alívio para esse sofrido povo que não abdica do sorriso. Nos dias que correm, seria um breve armistício nessa guerra civil declarada (sic!) que vivemos, que vitima por ano mais de 60.000 pessoas. Sinto por esse povo.

Mas, como o estilo da seleção exibe algo do país, penso que os deuses tramaram contra nós porque há muito impacientaram-se com a nossa conhecida falta de planejamento em nome do improviso fora de hora. Noutros termos, é difícil para o brasileiro balancear a arte (talento, espontaneidade) com a técnica (planejamento). Só que toda arte original exige uma técnica.

Ademais, o brasileiro é dispersivo. Lembre-se do que ocorreu quando o Brasil tomou o primeiro gol e todos os jogadores esqueceram tática e defesa, e, insanamente confiantes só no talento, nervosos debandaram-se para o campo belga, proporcionando oportunidade de mortífero contra-ataque.

O nervosismo dos bons jogadores brasileiros, em face de bons e inteligentes jogadores belgas, só aumentava. Como os brasileiros foram cegados pelo primeiro gol tomado, isso os impedia de bem finalizar: basta contar as quatro chances claríssimas de gol desperdiçadas por jogadores, que, de 7 chances parecidas só desperdiçam, em condições de equilíbrio, 1.

Outra dispersão foi a quantidade de parentes em torno dos atletas. Chegaram a praticamente fechar um hotel em Sochi. Isso, penso, atrapalhou sim a concentração do selecionado. Era excesso de gente em torno deles, geralmente com exigências disso e daquilo, sem falar das intrigas entre tantos parentes por conta de vaidades múltiplas – como ocorre em todo ambiente com tanta gente junta.

Ora, feita a encenação trágica e a catarse, que tal dar um tempo, depois dos merecidos agradecimentos, à escola gaúcho-dunguista de futebol? Há momentos na vida em que precisamos de novos ares, de renovação, para a própria sobrevivência. Que tal, ainda, renovar toda a CBF e já começar o planejamento não para a copa do Qatar mas para a dos EUA, Canadá e México em 2026? Às vezes a paciência é recompensada.

Com tudo isso, a técnica ajudará o talento futebolístico dos brasileiros. Afinal, como dizia Kant, o indivíduo talentoso pode até pensar que desfila melhor num cavalo selvagem que num domado, mas isso é um erro; em realidade o talento, que ele chamava de gênio, precisa ter suas asinhas cortadas (pela técnica), do contrário não passa de um insensato original. Em vez de gênio, será um nervoso genioso.