Concedendo a Hegel que a Ave de Minerva só levanta voo ao fim do dia, no sentido de que o filósofo só emite a sua opinião quando a poeira dos fatos assentou-se, então falo agora da polêmica criada em torno dos grafites recém apagados por Doria em Sampa.

Serei direto. Foi um atentado estético, dele e do seu secretário de cultura.

Quando vou a São Paulo, e retorno pela avenida 23 de Maio para o aeroporto de Congonhas, um de meus prazeres é (era) apreciar os grafites dessa cinza avenida.

O grafite colore a metrópole e humaniza os seus muros insensíveis e insípidos, com figuras, gostemos delas ou não, que querem contato conosco; como que nos convidam a compor uma história em quadrinhos, dinâmica, pois de onde os olhamos, geralmente o fazemos em movimento. A cidade fica menos impessoal.

Ademais, via de regra, o grafite tem o respeito do pichador, que evita pichar em cima dele. Muitos pichadores emigram da pichação para o grafite, renunciando àquele ato rabiscador de natureza invasiva e violenta, diferente de grafitar, que é desenhar (às vezes com autorização) a vida nos muros da cidade.

Grafite é uma forma de arte. Tanto que alguns grafiteiros de Sampa são hoje requisitados para grafitar em cidades da Europa e dos Estados Unidos. Na Olimpíada do Rio de Janeiro, Kobra, grafiteiro paulista, humanizou o Boulevard Olímpico, com uma obra que muito impressionou e impressiona os passantes.

Pois esse mesmo artista teve sua obra pichada, como reação à pichação (pois o nome é este) que Doria fez em cima dos grafites da Avenida 23 de Maio. Doria agiu como pichador!

Doria, com seu ato que mostrava desconhecimento de tendências contemporâneas de expressão artística, agiu como Hitler diante das vanguardas artísticas, e considerou uma forma válida de expressão estética, “arte degenerada”. Degenerada foi a pichação cinza, dele e do seu secretário de cultura, nos até ali coloridos muros dessa veia da cidade que flui para o aeroporto. Veia até certo ponto cortada com o amalucado ato do prefeito. A avenida está anêmica. Se ela voltar a ter cor, então que os grafiteiros que tiveram suas obras apagadas, obtenham a preferência na revitalização.