Causou furor na imprensa brasileira, e nos intelectuais dinossáuricos de esquerda que não leem Marx, a declaração de Michel Temer de que as degolas no presídio do Amazonas (e agora Roraima) foram um “acidente”. Uniram-se para ficarem estarrecidos, como se uma enormidade tivesse sido dita. Não foi.

Se algo acontece por acaso, fala-se assim porque desconhecemos duas séries de eventos que se cruzaram e provocaram esse acaso (acidente). Isso cabe na definição de acaso pelo velho e bom Aristóteles. Assim, se uma telha cai na cabeça de uma pessoa e esta morre, diz-se que houve um acaso, um acidente, mas na verdade duas séries causais independentes entre si encontraram-se naquele exato ponto, uma que movia a telha (o vento, por exemplo), e outra que levava a pessoa a sair de casa. Mas como não temos o domínio das duas séries causais, falamos de acaso, de acidente.

Portanto, quando Michel Temer fala de acidente para se referir às degolas, em presídio da Amazônia, de homicidas por homicidas, sem o saber talvez, estava sendo aristotélico. Foi infeliz porque uma palavra nunca tem significado pétreo. O seu significado mais rígido é estabelecido pelo seu uso corrente numa dada cultura.

De modo que quando o referido presidente fala de acidente, fala de fatalidade. E agora entra o lado difícil da coisa. Quais séries de eventos se cruzaram e produziram essa fatalidade?

Várias coisas, como todos sabemos. Homicidas em guerra (não esqueçamos que os degoladores e degolados são bandidos muito perigosos). O negócio lucrativo das drogas. Os consumidores de drogas, tanto de extratos sociais baixos quanto elevados, má administração de presídios etc.

Enfim, todo um caldo de séries causais, que não é discutido, e que conduz a uma situação de hipocrisia.

Por que quando a imprensa cobre tais casos a culpa é sempre do traficante? Por que não aborda o fato de que é principalmente a classe média que sustenta o mercado das drogas recreativas em suas baladas e cata desenfreada de prazeres rápidos? Esse público consumidor é a outra ponta do problema. Um problema de saúde pública e de segurança pública sobretudo.

Minha convicção. Devemos legalizar gradativamente todas as drogas. Tirar o poder do tráfico. Afinal, se se pode comprar drogas lícitas, porque não tornar as atuais drogas recreativas, isto é, ilícitas, lícitas? Recolha-se imposto, retire-se o poder desses homicidas periculosíssimos que são os traficantes.

Mas não me confundam. Eu defender a legalização das drogas não significa que defendo o seu consumo, assim como o fato de eu defender a descriminalização do aborto não significa que defendo o aborto. São duas coisas diferentes.

Eu defendo a autonomia do indivíduo. Cada pessoa que use a sua ilusão de liberdade, com todas as suas consequências, inclusive sem apresentar depois a sua conta para os outros pagarem.