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Arte: André Bonani

Pequenina,

Devido aos inúmeros finais de semana plantonando no trampo, essa foi a primeira vez que consegui te acompanhar em uma festinha infantil.
Quer dizer, primeira vez em uma mega-ultra-hardcore-balada-top-infantil. Daquelas com buffet, temática própria, palhaços, animadores, fliperama vintage e moderno, escorrega de metros de altura e engenhosos e gigantescos brinquedos cujos nomes desconheço.

Trilha sugerida:

Já havia ido a inúmeras outras festinhas, mas todas bem mais modestas. Como as suas, essas eram feitas em jardins, salões de prédios ou apertadas salas de estar, ou seja, sempre locais adaptados. Nunca uma dysnelândia desenvolvida exclusivamente para essa onda de kids gone wild como vejo agora.

Na verdade, festinhas não faltam em nossas vidas. Esse é um fenômeno curioso, a partir do momento em que temos filhos, imediatamente todos os finais de semanas até 2027 são preenchidos por aniversários de crianças. Simplesmente brotam convites do Huguinho, do Zezinho e não param mais. Isso, ou chás de bebês que são quase um subgênero de festinha infantil.
Uma vez, durante um chá de bebê, papai aqui, já suficientemente alto, lançou um “parabéns pra você” e todos os demais, igualmente altos, seguiram o coro. E assim, cantamos até que no fim, na hora do “e pro fulaninho, nada? Tudo!!”, percebemos que o fulaninho ainda não tinha nome, ou mesmo corpo. Ele ainda estava sendo gerido na barriga da mãe.
Veja, pequenina, não nos julgue. Essas celebrações são tudo que temos e todo chá de bebê vira chá de beber a valer.

Depois de tantas noites de esbórnia, agora as aventuras se resumem a isso. E contraditoriamente, noto que todo o passado dionisíaco era apenas um preâmbulo do que estava por vir. Cada show punk, rave, afters, inferninho, boteco e biboca de todo tipo eram apenas um aperitivo para a verdadeira loucura e anarquia que são as festinhas infantis de buffet.

O pula-pula deixaria A Lôca ou a Klatu no chinelo. Crianças batem cabeça como se não houvesse amanhã, derrubam suas bebidas uma nas outras em um frenesi alucinado e vomitam sem puder onde bem entendem.
O carrinho de bate-bate humilharia qualquer playboy que tirava racha na Av. Faria Lima anos atrás.
E o gigantesco túnel por onde as crianças engatinham é uma espécie de dark room. Lá, adulto não entra e ninguém é de ninguém.

Diante do absoluto caos, tento recorrer ao meu clássico refúgio em baladas, o álcool. Mas logo percebo que aqui só os avôs são felizes. Apenas os mais velhos conseguem whisky nesse terra de pequenos. Mesmo sendo um grande open bar de tudo, para os pais, não há tempo. Pelo menos, tenho um belo álibi para me empanturrar de coxinhas, hotdogzinhos, pizzinhas e outras delícias em miniaturas. Pego um monte e digo para a garçonete, “é pra pequena” e sorrio. Ninguém estranha ou nota que você está ocupada demais pendurada de ponta cabeça no gira-gira enquanto me empanturro.

Enfim, depois de inúmeros “de novo, papai, de novo” encontro o descanso no chill out perfeito, a piscina de bolinha. Que invenção. Não sei como a Love Story ainda não colocou uma dessas por lá.
A piscina de bolinha é o respiro após tanto hedonismo desvairado. O relaxamento quase zen que equilibra a coisa toda. Lá, deitamos e apenas existimos. O local ideal paras as epifanias das mais variadas espécies.
Não raro, doidões sacavam todo o funcionamento do universo quando deitados nos puffs dos chill outs de raves. Já vi acontecer inúmeras vezes. Lembro de uma moça de dreads coloridos que se aproximou e sussurrou em meu ouvido, “prepare-se, os alquimistas estão chegando. Leia o livro Universo em Desencanto” e saiu confiante após ter compartilhado o que ela imaginava ser a verdade absoluta. No fundo, ela estava apenas misturando as trips de Jorge Ben e Tim Maia que, vejo agora, poderiam ter tido suas próprias revelações em piscinas de bolinha.

Enquanto devaneio, você submerge entre as bolinhas coloridas. Deitada e apenas com os olhinhos para fora, séria e profundamente você diz, “papai, você está aqui. Mamãe está aqui. Eu estou aqui”. Eu entendo o que você está dizendo, minha budistinha. Viva o presente. Não adianta remoer passados, ansiar futuros. O aqui e agora é o que importa. Você parece perceber a grandeza desse momento – sua primeira grande sacada – e sai correndo entusiasmada:

“Aqui, aqui!! Eu estou aqui!” , você grita para todos.
A moça fantasiada de Magali da Turma da Mônica te olha esquisito. É, ela ainda não está pronta. Mas suspeito que o Cascão entendeu.

Amor,
Papai.
10.11.16