Pequenina,
escute esse conselho: jamais pare de fumar. Sério.
Bem, imagino que a melhor maneira de fazer isso seja nunca começar. Talvez essa seja a única maneira de não ter que passar por isso. Então, fica esperta, pois a brincadeira não é nada fácil ou divertida, viu?

trilha sugerida:

Desde que comecei a parar, tenho pensado em te escrever a respeito. Não o fiz antes por receio. Não sei se parei de fato. Não sei se algum dia poderei dizer isso. A coisa é um processo meio infinito, sabe? Fico imaginando se ainda estarei sem cigarro quando você ler isso. Pode ser que não e essa carta se tornaria um atestado do fracasso. Mas é um risco. Posso voltar a fumar e posso parar novamente. Aceitar isso ajuda.
Por enquanto, só por hoje, estou firme.E foram muitas provações:

Enquanto parava de fumar, teve Michel Temer e seu notório dream team da corrupção. Tiveram jogos épicos de Libertadores da América com direito a zagueiro jogando no gol e uma eliminação dramática pautada por uma absurda arbitragem. Tiveram decepções gigantes no trabalho. Oportunidades perdidas, cagadas, erros meus e dos outros.

Teve também o maior desafio de todos até o momento, o período de adaptação na escolinha. Pequena, como é difícil começar a escolinha. Digo, ver você começar. Não eu. Eu só tenho que te deixar lá.(Importante lembrar meu papel). Ainda assim, é uma dor. E o cigarro ajudava tanto papai a enfrentar esses momentos de dor. Aguentar a vida acontecendo com toda sua força e dor.

E não só dor. Nos momentos felizes também, o nosso amiguinho cigarro estava sempre lá, ao meu lado.
É cretino, eu sei. Um produto cretino vendido por gente cretina. Mas pularei essa parte. Deduzo que você será uma moça bem informada e saberá todos os zilhões de malefícios. Não irei fazer como aquelas pessoas que assim que avistavam um fumante vinham correndo trazer a novidade: “Isso mata, viu?”. Eu sempre pensava, “Ah, vá! Sério mesmo?!? Agora finalmente as figurinhas atrás do maço fazem sentido”
Quer dizer, se uma nova pesquisa tivesse na área, alguma novidade a respeito. Mas era só o mais do mesmo, “cigarro mata”. Deduzo que você saberá muito bem disso e portanto não pularei essa parte.
No momento, apenas me apego a despedida desse fedido e traiçoeiro parceirinho que sempre me acompanhava

Quando não sabia o que fazer com as mãos (Mas ok, os bolsos estão ae pra isso e não dão câncer, né?). Quando estava entediado.(Mas é isso, a vida é tédio também. E não há cigarro no mundo que resolva) Quando precisava matar o tempo. Quando dividia cigarro com uma companhia legal. Quando fugia de um lugar merda para fumar. Quando no trabalho precisava respirar (há!). Quando achava que tudo ia dar errado. Quando tudo dava errado. Quando perdia o controle e precisava desses sete minutinhos para não piorar. Quando no trânsito. Quando parado. Quando esperando. Quando deitado. Acordando, indo dormir. Após o almoço e com café. Meu deus, com café. E no frio! E na praia, na areia. Na montanha, na rede. Na hora de começar qualquer texto. Na hora de reler o primeiro parágrafo e no meio do terceiro parágrafo. Na hora de encerrar o texto. Na hora de reler e mudar tudo. Quando decidir não mexer mais. Quando mostrar o texto pra alguém. Quando desistir de publicar. Bêbado. Nossa, bêbado! Como fui feliz fumando bêbado. Tá, vou parar aqui, do contrário, acenderei um cigarro.

É um aprendizado passar por tudo isso, sem a muleta/companhia do amiguinho canceroso.
E o mais difícil é que a vida não para, minha fumacinha. Parar de fumar simplesmente não é atenuante para nada. Ninguém vai falar, “x dias sem cigarro? Nossa, não precisa trabalhar hoje não, fera. Você merece, campeão.” Pelo contrário, as merdas seguem todas no mesmo lugar com nicotina ou sem e temos que lidar com isso.

Hoje, ainda sei exatamente o número de meses e dias que estou sem fumar. Pretendo eventualmente esquecer essa conta mas ainda não.
E enquanto conto os dias, semanas e meses, você não consegue dormir sem sua chupeta.
Eu te entendo, pequena.
Papai entende.

Amor esfumaçado,
Papai.
21.07.16