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Arte: André Bonani

4h27 da manhã, desperto de sonhos tranquilíssimos com seu grito:
-Chupetaaaa! Quero a chupeta rosa! Quero a chupeta rosa!!!
 
Com o ânimo peculiar a quem acorda `as quatro da manhã, rastejo pela casa em busca da chupeta rosa. Acho uma verde. Graças! Problema resolvi…

-Nãooo. Quero a rosa! Chupeta rosa!
-Mas, pequena, são quatro da manhã. Pega a verde mesmo, vai.
-Não. Quero a rosaaaaaahhhh!
-Ah, sabe pequena, será que não é o momento para nos livrarmos das muletas em nossas vidas? Você realmente precisa disso? De chupeta? Pensa no papai, eu larguei o cigarro. Eu entendo de onde vem essa sua necessidade de preencher o vazio, é foda mesmo. Mas papai largou o cigarro. É possível, viu? Estamos todos nessa, minha coisinha. Talvez seja a hora de você confiar em si mesma e se bastar, sabe? Chega de muletas, meu amor. Larga o cigarro, digo, a chupeta. Aproveita esse momento de sumiço da chupeta rosa e vamos juntos! Uma mudança de perspectiva. Quem sabe faz a hora! Hein?
-Chupeeeetaaaaaaa rosaaaaaaahhhhhh!

trilha sugerida:

 
Abandono a autoajuda e na penumbra da sala de estar encontro uma chupeta branca. Tento te empurrar, mas

-Chupetaaa rosaaaahhhhh.
-Mas minha filha, é chupeta igual. Por favor, pega logo essa. Precisa mesmo ser rosa? Aliás, será que o rosa que você vê é mesmo rosa? Já parou pra pensar que o seu rosa pode ser o meu branco? E que ninguém vê as mesmas cores da mesma maneira? E assim, você aprende que determinada cor é rosa apenas porque te ensinei assim. Mas o rosa que você convencionou a chamar de rosa pode ser branco para mim e verde para a mamãe. E nunca saberemos como eu vejo o rosa ou você. Ou seja, no fundo, tanto faz a cor. É tudo meio relativo, são conceitos…
-Chupeeeetaaaa rosaaaaaaahhhhhhh!

Desisto de relativizar e vou atrás da chupeta rosa pela cozinha fria. Encontro uma amarela. Tento a sorte e…

– Chupeeetaahhhhh rosaaahhhh!
-Olha, minha filha. Isso já está demais. É um absurdo ficar chorando por uma chupeta rosa. Sabia que tem gente que não tem o que comer? Sabia disso?! Enquanto um monte de criança está passando fome na Africa, aqui na esquina, em todo lugar, você fica aí exigindo uma chupeta rosa. Isso não tem cabimento! É isso mesmo, minha filha. O mundo é um lugar tremendamente injusto e horrível e…não, formiguinha, desculpa. Não chora. Só queria explicar que existe injustiça social e que a vida…tá, foi mal. Muito cedo, em todos os aspectos (4h30 e dois anos) para esse papo. Ok, ok, chupeta rosa.

Pela sala vou esbarrando e tropeçando em giz de cera, quebra cabeça da Peppa, boneca tagarela, bola de futebol, surpresinhas de kinder ovo, peças de brinquedos indefinidos e pontudos, bichos de pelúcia, uma Elsa que canta “Let it go” sem parar ao ser pisada por mim. E nada da chupeta rosa. Decido então apelar, faço um combo de suas coisas favoritas que encontro e vou confiante e conciliador:

-Pequena, achei um monte de coisa legal pra você! Olha, eu sei que você quer a chupeta rosa. Eu entendo. `As vezes, precisamos de nossos amuletos, nossas muletas mesmo. Sei bem como é. O mundo pode ser assustador. Esse universo tão grandão e nós tão pequenos, né? Nossas insignificâncias. Nossa finitude. É difícil perceber que talvez nada disso tenha propósito ou sentido mesmo. Talvez tudo seja puro acaso. Tudo vazio. E realmente, talvez nada nunca preencha esse buraco interior. A vida pode ser dura e podemos nos sentir sozinhos e…pequena? Ei, pequena? Acorda! Tamo conversando aqui. Pequena? Formiguinha, não me deixa sozinho aqui nessa onda, não. Acorda. Ei? Psiu?
Ahhh, meu reino por um cigarro!

Saio procurando algum cigarro (ou sentido, propósito, resposta) perdido pela casa e sem querer encontro a bendita chupeta rosa. Já não importa.

Não fumo.
E também não durmo mais.

Amor,
Papai.

08.09.16