andré ilustra insonia

Arte: André Bonani

Abro os olhos e procuro reconhecer qualquer coisa ao meu redor. Aos poucos a escuridão deixa de ser e as silhuetas ganham tons.

Você dorme na horizontal, como que pra provocar. Rosto na mamãe, pés no papai.

Faz tempo que não consegue dormir sozinha. Sempre se enfia entre nós, os bichinhos e os lençóis. Nós gostamos, devo admitir. É legal dormir contigo.

Mas hoje – na verdade, há algum tempo – tenho tido dificuldades.  “Sim ou não?”, me desperta. Me bagunça. Me atormenta.

Você busca abrigo em nossa cama, já minha cabeça não encontra em canto algum.

Trilha sugerida:

 

Durante a noite, os medos todos crescem. Você bem sabe, né?

Com corpo cansado e olhos insistentemente abertos, te observo. Verifico se segue respirando. Coraçãozinho batendo. Se está muito quente ou muito fria? Já ouviu falar numa coisa chamada combustão espontânea? Verifico isso também.

As malditas paranoias noturnas.

Será que há monstros embaixo da cama? Sim ou não?

Já as contas, essas eu sei, existem. Existem também prazos, saldo no vermelho e juros.

Penso na conversa que preciso ter com meu chefe. Peço aumento ou demissão?

O que foi esse barulho lá fora? Tem alguém ali? Sim ou não?

Além de contas, minhas costas doem. Doem bastante e não encontro posição. O que pode ser essa dor estranha? E se for câncer? E se eu tiver apenas um mês de vida?  Amanhã procurarei um médico, sem falta.

O trovão pode nos pegar? Sim ou não?

Penso no meteoro previsto para o dia 16. Tento lembrar o nome do suposto cientista, acho que russo. Se o meteoro de fato estiver a caminho, como faremos? Como viveremos nossos últimos instantes? E se eu morrer e você sobreviver? Como vai conseguir comida em um mundo pós-apocalíptico? E se for o contrário? Será que dia 15 devemos correr para as montanhas? E se essa porra for cair mesmo, melhor não me preocupar com as costas ou as contas, não é?  Podemos aproveitar todas as noites restantes e dormirmos juntos, os três, na cama. O sono dos justos ou dos condenados.

Sim ou não?

Amanhã, a primeira coisa que farei, depois de marcar o médico das costas, falar com o chefe e ligar para o banco, será apurar esse tal fim do mundo.

O dia finalmente amanhece. Durmo pouco, quase nada. O dia passa. Ainda meio zumbi, escrevo essa crônica. Bato cartão. Cumpro tarefas. Nem penso em minhas costas, contas, chefe ou meteoro. Não dá tempo. Não ligo. Não lembro.

De noite, te prometo, vamos deixar a luz da joaninha acesa até de manhãzinha, tá?

Amor insone,

Papai.

02.02.17