ilustra cores andré

Arte: Andre Bonani

Tarde ensolarada, dirijo e levo no banco de trás você e sua amiguinha, a Nina. No som, Pequeno Cidadão e vocês falando sem parar.

É lindo de ver pelo espelho retrovisor interno a diversão de vocês duas. Fico me equilibrando entre o trânsito e a beleza de te ver conversando toda articulada, toda segura, toda toda. Você imita gestos adultos, faz graça, conta histórias de nosso cotidiano, mostra brinquedos e ri muito.

Trilha sugerida:

Naquela onda, dia perfeito, eu me emociono e penso algo na linha, “ah, são esses momentos que fazem tudo valer a pena”.

E então, como era de se esperar, a paz é bruscamente interrompida. Eu deveria saber, esses “momentos” costumam não durar. A treta começa assim:

Na rua observamos uns homens trabalhando. Você diz,

-Olha, a roupa dele é roxa.

A Nina não concorda:

-Não!! É rosa!

E então, uma sucessão sem fim de argumentos refinadíssimos e sofisticados:

-Roxa!!

-Rosa!!

-Roxa!!

-Rosa!!

Gritos, choros. Parece o fim do mundo. Não fosse a cadeirinha prendendo as duas, acho que teriam saído na mão ali mesmo. Vocês jogam os brinquedos no chão e urram desesperadas, “roxa!!!, rosa!!!”.

Não há chupeta que nos salve do berreiro. Eu tento mediar, colocar outra música, brincar, bater palminha, mas nada importa mais além de “roxa, rosa”.

A briga segue e eu noto que os homens trabalhando estão desmontando a decoração de Natal. Estão destruindo a árvore gigante e os enfeites pendurados nos postes. As renas, o papai noel, o trenó, a aposentadoria, o boneco de neve, direitos, tudo indo embora. Tudo o que você, nos últimos meses, mais gostava de ver durante o caminho.

Quer dizer, enquanto vocês se agridem – de maneira absolutamente tonta –  para ver quem esta certa sobre a bendita cor, o Natal e todas aquelas coisas bonitas que você ama são levadas. Diante dos seus olhos as coisas acontecem. Mas você só quer brigar com a amiguinha ao lado e ignora tudo ao redor.

Será que é preciso explicar sobre o que realmente é esta crônica?

Ah, a propósito, o uniforme dos moços é laranja.

Amor,

Papai.

19.01.17

Ps, Em tempos difíceis é bom ser explícito, a crônica é sobre união. Sobre não brigar com o amiguinho 🙂