ilustra andre eleição coco
Arte: André Bonani

Trilha sugerida:

Querida pequenina,

A situação do país não está nada fácil. Sofri um bom tempo tentando te escrever sobre o cenário político brasileiro. Fracassei. Acho que ninguém, exceto talvez a Eliane Brum, consegue lucidamente sacar a cena toda.

Além de não conseguir explicar nada, confesso que não quero macular esse nosso espaço aqui com algo tão sujo e podre quanto à política brasileira contemporânea. Pensando nisso, minduquinha, resolvi escrever sobre algo bem mais limpo e elevado: Cocô. Isso, merda, bosta, caca, como preferir.

Você talvez estranhe minha atitude quando abro sua fralda e encontro aquele cocozão fedido. Eu normalmente vibro, faço festa. “Uh é cocozão, oba!”, costumo cantar. É tudo mentira, cocozinha. Na verdade, sempre que vou abrir sua fralda rolam uns segundos apreensivos de tensão. Quando se trata de alarme falso, só pum e xixi, respiro (pela boca) aliviado. Absolutamente odeio ter que lidar com cocôs em geral. Mas tento disfarçar. Faço esse teatrinho escatológico pois não quero que, no futuro, você associe cagar a algo ruim.
Por algum motivo, conforme crescemos, desaprendemos algumas coisas. Fazer cocô, pra muita gente, vira uma questão dificílima depois de grande.

Li em algum canto que mais meninas sofrem de prisão de ventre em comparação aos meninos. E uma das possíveis explicações seria que na infância meninos são incentivados a cagar e peidar. Pra eles é tudo muito engraçado. Já as meninas são estimuladas a esconder, disfarçar. Como se cagar fosse brincadeira de menino e vergonha de menina. Pois bem, não é. O ato de cagar é incrivelmente democrático e caga e anda (há!) para gêneros.

Pela mesma lógica, te incentivo a soltar todos os puns do mundo. Torço que continue rindo depois de soltar um punzão. Claro, não estou dizendo pra sair peidando por aí impunemente como se não houvesse amanhã. É realmente desagradável submeter estranhos inocentes a um odor desagradável sem prévio aviso ou convite. Deselegante, diriam.

Por outro lado, lembro de uma entrevista do João Ubaldo Ribeiro em que falava sobre o Glauber Rocha. Salve o engano, era uma história sobre o cineasta que quando entediado ou contrariado soltava uma bela bufa. Quase como um protesto pacífico e silencioso. Na verdade, não lembro muito bem esse papo, não sei se era hábito ou fato isolado. De qualquer forma, gostei da ideia e fica a dica.

Se, em algum momento, você esbarrar com aquela turma que falei lá no começo – os que fazem “política”, os mesquinhos senhores do poder – não hesite. Solte o punzão mais fedido que conseguir.

É triste, eu sei, mas um punzão é o único conselho que consigo formular sobre o momento atual. Aparentemente, o que tem pra hoje é tocar um tango argentino, soltar uns puns e dar uma bela cagada.

Amor sempre não importa o tamanho da cagada,
Papai.

14.04.16