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Arte: André Bonani.

Enquanto a maioria dos brasileiros se esforça pra entender e se surpreende com esportes como badminton, canoagem, hóquei ou luta livre. Para você, minha atletinha, encantamento e ineditismo são garantidos em absolutamente todas as modalidades. E meu esporte favorito, durante essa nossa primeira Olimpíada juntos, tem sido te acompanhar nessas descobertas.

Na estreia da seleção feminina de futebol, por exemplo, você teve a feliz surpresa de que meninas também jogam. E para quem ainda duvidava que representatividade importa, naquele mesmo dia, nossa sala virou campo de futebol, a casinha da boneca, gol e você, a Marta.

Trilha sugerida:

Ao longo de dois anos, com medo de você torcer por algum rival do tricolor paulista, papai talvez tenha exagerado no esforço em te fazer associar qualquer atividade esportiva ao São Paulo Futebol Clube. Por isso, você acabou confundindo um pouco as coisas. A cada gol ou lance mais agudo, você vibrava “Gol do São Paulo!” Eu não corrigi e assim, o Brasil virou o São Paulo nas Olimpíadas.

Descobriu o vôlei, esporte que batizou de Pula-bola. O que faz sentido, realmente. Todo lance era “Pula bola, pula bola, pula bola, gol do São Paulo!”

Na natação, vendo o Phelps na água, você entendeu a coisa melhor que o Galvão Bueno. Se o narrador gritava “vai ganhar, vai perder, vai ganhar, vai perder. Ganhou! Perdeu! Ganhou!” Você resumiu tudo com calma e precisão, “Ele vira peixinho!”.

E se enfezou ao saber que tênis não é apenas seu All Star vermelho. Eu tentei explicar que são coisas diferentes com o mesmo nome. Mas você não gostou. Até dei um google para descobrir a origem desse nome, mas achei a história pouco interessante. Resumindo, segundo o primeiro site em que cliquei, “vem de Anglo-Francês tenetz, “receba, segure, tome.” Tratava-se de um aviso de que o saque ia ser dado.”

Já a contagem de pontos no tênis, como explicar a quem só sabe contar até 12? Bem, o primeiro ponto vale 15. O segundo dobra e vira 30. Já o terceiro, surpreendendo qualquer expectativa lógica, vale 40. O próximo ponto então deveria ser 45? 50? Talvez 80? Nada disso, minha Guguinha. O ponto seguinte é o 1, “um game”. Bom, esperarei até o ginásio para te explicar melhor. Até lá, a cada ponto seguiremos com “gol do São Paulo”, mesmo.

Riu muito com o tênis pequenininho. E riu mais ainda quando chamei de pingue-pongue. Quando tentei dizer que pingue-pongue talvez fosse depreciativo com os atletas olímpicos era tarde demais. Assim, o tênis de quadra virou pingue-pongue grandão e o de mesa, pingue-pongue pequenininho. E a cada quebra de saque, ou ponto conquistado, é claro, “Gol do São Paulo!”

Amou e, girando com os bracinhos pra cima, imitou por horas as “bailarinas”, as meninas da ginástica olímpica. Você também imitou um avestruz e um avião. Não consegui entender bem essa associação, confesso.

Na esgrima, você pareceu gostar das luzinhas que piscavam na armadura do menino do Brasil.

E nos tatames do judô, eu – maior especialista do assunto aqui em casa – te expliquei com autoridade, “Foi Ippon!! Sem sombra de dúvidas, que baita Ippon! Ih, não? Ah, então Wazari. Pode ter certeza, um belo de um Wazari! Opa, parece que não. Mas pelo menos um Yukozinho? Bem, no mínimo uma advertência. Olha, medalinha, o juiz obviamente está roubando e não entende nada de judô.”

Por fim, ao ver a vitória da Rafaela Silva – judoca, mulher, negra, da Cidade de Deus e primeiro ouro brasileiro –  você disse, “Ela tá chorando, papai. Dodói? Ih, o papai também tá. Que foi? O São Paulo perdeu?”

Mais fácil te explicar as regras mais obscuras do badminton ou luta livre do que aquelas lágrimas.

Amor,
Papai.
11.08.16