Trilha sugerida

 

Pequenina,

Papai é muito boca suja, você sabe. É uma daquelas coisas que tenho que rever. Assim como o cigarro que não fumo na tua frente, deveria evitar falar palavrão. Mas não é tão fácil como parece. Além de ser um entusiasta desse recurso linguístico, meio que não consigo prever quando ele surge. Não como aquela síndrome lá, mas simplesmente sai.

Numa madrugada ressacada, você acordou e veio até nossa cama toda animadinha às 4h da manhã e sem nem perceber eu disse, “ai, caralho”. E de bate pronto você respondeu, “caraio, caraio, caraio” e não parava mais, enquanto eu morria de rir.

Eu sei, rir definitivamente é a pior coisa que um pai deve fazer nesses casos. Mas ao mesmo tempo, não consigo imaginar coisa mais engraçada do que ver uma pessoinha tão fofa e minúscula como você falando uns palavrões feiosos.  Não sei o que nesse contraste é tão hilário, simplesmente é. Você percebeu isso e para desespero de suas avós, durante umas semanas virou teu lance, tudo era “caraio”.

Com o tempo, você esqueceu o maldito caralho. Até o dia em que aprendeu a falar “cavalo”. E aprendeu errado.  Aí, toda vez que chegávamos no parquinho era um desespero. Lá tem aqueles cavalinhos de plástico e você toda animada ia gritando pra outras crianças, e pior, para os pais delas, “caraio, caraio”. Eu disfarçava, “isso, caVÁlo, é o cavalinho”. “eeee, caraio”. Uns pais riam, outros fingiam que não tinham ouvido.

Por essas e outras, estou me esforçando. Ontem mesmo, trocava sua fralda e pintou um cocozão enorme. No lugar de um “puta merda” basicão, mandei um mais civilizado “Nossa, mano”. E foi fera, hoje você passou a manhã toda falando “nossa, mano, nossa, mano”.

Carambolas, como é lindo ouvir você falar “nossa, mano”. Putz grila, é realmente do peru!

Amor do caracoles,

Papai.

25.02.16