pequeno ponei
Crédito: Tira “Pequeno Pônei” de Caco Galhardo

No bar, amigos conversam:
-Cara, impressionante como todos os isqueiros somem quando estou chapado!
-Nem precisa estar chapado. Eles somem todos sempre! Acho que algum duende coleciona todos os isqueiros do mundo em algum canto mágico. Os isqueiros e as canetas bic.
Eu tento participar da clássica conversa juvenil:
-Verdade! Nossa, e as chupetas então?
– Que chupeta, cara?
-As chupetas sempre somem quando precisamos, quando a pequena tá para dormir nunca acho e…
-Ah, chupeta, chupeta mesmo…
Silêncio.

Dia ensolarado, o Palavra Cantada quebra tudo no palco a céu aberto do Parque Ibirapuera. Você, junto a uma legião de fãs enlouquecidos, dança, pula e grita na lama como não houvesse amanhã.
Vendo toda aquela lama, comento ao pai ao lado,
-Só falta o Paulo Tatit anunciar no microfone para termos cuidado com o doce estragado.
-O que? A jujuba tá estragada?
-Não, cara. Doce, ácido, Woodstock!
-O do Snoopy?
Você, pequena, interrompe aquela tentativa falha de diálogo:
-Woodstock faz mimimi-mimimi, Snoopy faz au-au.
E eu desisto.

Trilha sugerida:

Sabe, pequena,

como os pôsteres nas paredes de casa sugerem, papai sempre amou os deslocados, os marginais, os outsiders. Passei a vida inteira idolatrando e querendo ser como meus heróis que cuspiam na cara do status quo.

Hoje, isso me parece tão distante. Não que eu tenha virado um burocrata engravatado, mas não é nada fácil tentar bancar o junkie-poeta-maldito-beatnik-muito-louco depois dos trinta e, principalmente, da paternidade. Tudo é interpretado como fofinho, agora.
Esse blog mesmo. Sempre tento explicar que essas cartas não são sobre como é mágica e especial a experiência de ser pai. A ideia aqui é justamente tirar uma onda, fazer crônicas sarcásticas a respeito da coisa toda. Mas infelizmente, não sei bem o motivo, acabo sempre caindo na vala do fofo.

É difícil para quem, quando pivete, sonhava em brincar de ser Bukowski, John Fante, qualquer um dos beats, Baudelaire, Bataille, Sade ou outro “maldito”. Na verdade, se eu chegasse qualquer coisa perto do Reinaldo Moraes já estaria bem satisfeito. Mas no lugar disso, sou o cara do blog fofinho pra filhota.

Inclusive, agora mesmo, me vejo escrevendo “não sou fofinho, juro!” e entendo como pode soar “patético-fofinho-óin-pequeno-pônei”

Seria mais bacanudo escrever sobre heroína ou ópio no lugar de parquinhos e fraldas, realmente.
Mas, olha, existem semelhanças na vida de um artista desregrado e hedonista com a de um papai careta, duvida?:

Semana passada, fui trabalhar sentindo um cheiro estranho. Olhei os sapatos diversas vezes pra ver se não tinha pisado em nenhum cocô (digo, bosta. “Cocô” seria muito fofo) de cachorro. E nada, solas limpas.
Trabalhei o dia todo com aquele cheiro me acompanhando. Entrevistei pessoas, falei com outros jornalistas, chefões, colegas e desconhecidos. Apenas no fim do dia, no elevador, uma moça ficou me encarando. Ela tinha uma expressão curiosa que eu não consegui desvendar. Tive vontade de perguntar, “Que foi, tô cagado?”. Mas ela se antecipou e lançou, “É merda isso na sua blusa?”
Eu olhei e mistério resolvido, era merda. Sua, no caso. Basicamente, do começo da manhã – da hora em que troquei sua fralda – até o fim do dia, passei o dia inteiro cagado e nem aí.

Não conseguiria pensar em atitude mais punk e anti-sistema do que essa.
Sid Vicious não faria melhor.

Amor,
Papai.

07.07.16