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imagem: pixabay

Sobre o clichê.

-Cara, olha essa foto da pequena! Não, não, olha direito. Olha que coisinha. Tem esse vídeo aqui. Pera, pera, vê até o fim. Ó, no minuto 16 e 30 segundos ela fala “Te amo, papai”. Viu? Como não viu? Vê de novo. Agora, agora. É, é quase um “te amo, papai”, vai. Parece. Não parece? Ah, cê não ouviu direito. Vê esse então em que ela fala “Fora Cunha!”. É incrível. Já, já, tá falando tudo. Ah, tem esse outro que é genial! Joga futebol que é uma beleza. Tô te falando, aprendeu a andar chutando uma bola. Vai ser a nova Marta. Olha que lindinha, olha!
-Legal, realmente. Mas tem uma fila atrás do senhor, eu tô sozinho no caixa, outro dia o senhor me mostra…

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Eu não sei o que acontece, formiguinha. Eu prometi a mim mesmo que não viraria um desses. Sabe, esses caras malas que estão sempre prontos a mostrar uma foto dos filhos.
Eu lembro, sempre tinha esse cara. Abria a carteira e orgulhoso mostrava uma 3×4 amassada dos filhotes. Eu nunca soube bem o que responder. Demorei para perceber que dizer “parabéns” cabia. Passei a usar, “uma graça, parabéns” acompanhado de algum constrangimento, tédio e a certeza de que nunca obrigaria outro ser humano a ver imagens dos meus filhos.

Sei lá o que deu errado, mas o tempo passou, a vida aconteceu e eu virei esse cara. E pior. Agora não temos apenas uma fotinho, e sim todo um arsenal de vídeos armazenados no celular com imagens em HD de bebês aprendendo a usar o penico. E é quase como um vício, mesmo sabendo o quão penosa é a coisa, eu não resisto. “Olha, como é mais fofa! Já viu alguém bater palminha assim?”

Eu vejo acontecer, a transformação do pai clichê e não sei como evitar. É como se assistisse a cena de fora e nada pudesse fazer. Uma compulsão.

E o pacote pai-clichê não para por aí: Hoje, completamos uma semana longe, minha coisinha. Estou desbravando o interior de Minas Gerais por conta de trabalho e em cada lojinha de esquina te compro um presente diferente. Pois é, virei o cara que está sempre ocupado e tenta compensar ausência com presentes. Um personagem clássico. Milhões de filmes trazem esse drama: O pai executivo que só trabalha, não tem tempo para brincar com os filhos e sempre tenta comprar afeto com coisas. No meu caso é ainda pior. Não sou o pai executivo milionário dos filmes que compra coisas incríveis. Sou o pai-jornalista-sem-tempo-clichê com brinquedinhos bem mequetrefes e baratos.
Nunca imaginei que fosse virar algo parecido com isso, mas cá estou com uma semana de ausência, e uma mochila cheia de sapinhos, macaquinhos, vaquinhas e tudo que é bichinho de pelúcia vagabundo. (Tem um que se apertar a barriga faz “Muuu”. Mas ele está meio estranho fazendo “Murghf”)

O clichê parece ser algo inevitável. E por mais que tente fugir, sempre o encontro. Por exemplo, essa crônica inicialmente seria sobre a saudade que sinto de você, pastelzinha. Desisti quando comecei dizendo que saudade é uma palavra que só existe na língua portuguesa. Aí, ia emendar aquele papo sobre os esquimós terem x maneiras para falar a palavra “neve”. (O google diz que os escoceses têm ainda mais palavras pra neve, 400.Mas o clichê é com esquimós mesmo).

Pois é, aparentemente não há nada que eu possa fazer quanto ao clichê. Ou a saudade.
Já, já papai tá chegando. Enquanto isso, vou ver mais um vídeo de você cantando “Bilha, bilha estelinha”.
-Acho que essa vai ser cantora, viu.

Amor saudoso,
papai.

28.07.16