ilustração a que vale andré
Arte: André Bonani

“Oh! que saudades que tenho
Da tristeza em minha vida,…
Que os anos não trazem mais.”

trilha sugerida:

Não exatamente da tristeza – essa tem por hábito ser uma companheira fiel- mas saudade do ritual ingênuo, banhado em clichês juvenis, chamado fossa.

Não estou falando de dor, e muito menos depressão. Me refiro àquela fossa/álibi/salvo conduto para os comportamentos mais absurdos. Aquele momento em que você está triste. Sofreu um golpe, um fracasso, uma dor e por isso se permite coisas que normalmente evitaria.

Veja, pequenina, quando jovens sofremos muito. Na adolescência principalmente. Tem um lance de drama, ego e imediatismo que torna tudo muito intenso. Não que tenha amadurecido, mas a maneira de lidar com as dores da vida mudou radicalmente.

Desde que você chegou, minha miudinha, tem sido bem difícil curtir uma fossa. Os dramas seguem todos aí, mas falta tempo. Não cabe mais todo aquele ritual:

Ouvir Smiths em looping. Parar de ouvir tudo que lembra o motivo da dor (em casos de término de relacionamento, por exemplo, é meio qualquer música). Beber. Se abrir para amigos, colegas e completos estranhos se expondo de maneira vexaminosa. Beber. Vergonha. Ressaca. Arrependimento. Beber. Longas caminhadas contemplativas. Sensação estranha de superioridade por achar que conhece a dor mais do que ninguém. Ouvir conversa dos outros nas ruas de maneira condescendente e irônica. Beber. Escrever em um caderninho amassado com a certeza de que está fazendo boa poesia. Publicar em um blog. Se arrepender amargamente depois. Beber. Ligações estúpidas no meio da madrugada. Beber. Ir ao cinema sozinho e ter certeza de que só você entendeu o filme. Chorar no cinema. Beber. Chorar no ponto de ônibus. Sacar a beleza de cenas absolutamente vulgares e cotidianas; escrever no blog a respeito. Beber. Andar de metrô sem destino certo. Chorar no metrô. Beber. Sair com a mesma roupa dias seguidos. Ah, fumar quatrocentos mil cigarros durante todo o processo.

Querendo ou não, a fossa tem todo seu valor terapêutico. Uma maneira quase performática em lidar e expurgar a dor. Pelo menos era a maneira que eu fazia e aparentemente funcionava. Acho. Não sei. Funcionava?

Fato é que agora, por mais miserável que esteja me sentindo, tenho que acordar e cantar “Meu pé, meu querido pé que me aguenta o dia inteiro uouuuuo!…. Banhinho é bom! Banhinho é muito bom!” e seguir toda nossa animada rotina de mamadeiras, chupetas e banhos com patinhos laranjas.

Por exemplo, dia desses estava arrasado. Algumas coisas não deram certo e acordei querendo sumir. Não via a hora de te deixar na escolinha para enfim poder ficar triste em paz. Curtir uma mini-fossa-express no caminho para o trabalho. Quem sabe até ouvir um Legião? Mas não foi possível. Quando você entrou no carro, na hora, reclamou: “Que chulé! Que fedo! Sai sujeira, sai do carro do papai! Carro Cascão!” De fato, tinha esquecido uma camisa suada lá na noite anterior e estava tudo bem fedido. Então, a primeiríssima providência após te deixar na escolinha foi lavar o carro e comprar aqueles negócios de cheirinho. No caminho, ainda passei na farmácia. Não para comprar ansiolíticos, antidepressivos, ou coisas assim. Fui comprar álcool em gel mesmo que tinha acabado. Aproveitei e comprei sabonetes antibacterianos. A propaganda jurava proteger crianças de germes.

Aparentemente, bem longe da sarjeta, minha fossa hoje em dia é bem mais limpinha. Debaixo dos laranjais.

Amor,
Papai.
25.08.16