CACHORRO LEGIÃO

Ou Sobre farsas e macacos.

A brincadeira do macaco não cola mais. Perdeu a graça. Você cresceu, bananinha.
Quase todo dia, passamos em frente a uma loja chique com uma planta esquisita exposta na vitrine. A planta lembra o rabo de um macaco. Quer dizer, foi o que você disse. E virou nosso lance. Eu dizia “olha o rabo do macaco” e você ria. Gastávamos um tempo ali. No começo, minutos. Depois, alguns segundos. Hoje, você ignorou por completo o rabo do macaco. Só faltou rolar os olhinhos pra cima de tédio. O segurança da loja que há meses já brincava conosco sentiu o golpe e ficou triste também.

Trilha sonora:

Outra brincadeira envolvendo macacos também já era. Quer dizer, essa não era exatamente brincadeira. Era mais um macete para te enganar. Sempre que você insistia em se pendurar na mamãe já cansada de te carregar e com dor nas costas, eu apelava, “Vamos procurar macaco com o papai?” Por algum motivo, era a única coisa que funcionava e você pulava no meu colo. Mas depois de tantas tentativas e macaco nenhum, você percebeu que a chance de um macaco estar pendurado nos fios do poste ou na varanda dos prédios são bem pequenas. Não cola mais também. Você cresceu, macaquinha.

Faz parte, né? Crescer e desmascarar as farsas. É bonito, na verdade. Difícil é aceitar que junto à maturidade dos seus dois anos vem também um apurado gosto musical. Apurado demais para o papai e seu violão desafinado com uma corda a menos. É, demorou dois anos, mas a farsa “papai rockstar” acabou também.

Apesar da quantidade de fotos que tenho “tocando violão”. Ou das histórias das “bandas” das quais fiz parte. (E mesmo tudo isso sendo verdade) É tudo farsa também. As bandas eram punks, eu só gritava. As fotos não mostravam a qualidade do som, né? Meus talentos musicais, aparentemente, contemplam apenas plateias absurdamente alcoolizadas e/ou crianças de até dois anos. Não mais que isso.

Posso até apelar para “Leãozinho”, ainda assim, é só pegar o violão que você já começa a gritar “Para, papai. Não quero violão. Chega, papai! Sem violão”.
E assim, tenho que aceitar. Você descobriu. Foi bom enquanto durou, dois anos.
Pelo menos deu pra fazer umas fotos legais.

Eu até poderia te precaver de outras farsas como papai noel, coelhinho da páscoa ou o fato de adultos de 30 anos serem apenas adolescentes brincando de adultos. Mas melhor o tempo dar conta disso.

Em tempo: É verdade, papai não toca nada. E uma macacada simpática não vai tomar os arranha-céus da cidade. Mas, procurando uma imagem para esse post no google ,descobri agora que aquela planta lá da vitrine chique realmente chama “rabo de macaco”. Uma farsa a menos.

Amor,
Papai.
14.07.16