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Arte: André Bonani

Minha pequena, provavelmente você irá fracassar em quase tudo que fizer.
E vai abandonar pela metade a maioria das coisas a que se propuser, também.

Calma, isso não é uma maldição nem nada. Além de ser um daqueles começos de textos pilantrinhas que visam fazer o leitor pensar, “Como assim um pai diz isso pra filha? Vou ler até o fim e ver onde esse cara quer chegar”. Além dessa traquinangem literária, te digo isso pois estatisticamente é verdade. Fracassamos a valer. Quase o tempo todo. E não tem problema nenhum.

Trilha sugerida:

ou:

Veja, amorinha, ao longo da vida nos metemos a fazer muitas coisas. E é bacana que assim seja. Mas obviamente não seremos bons em tudo. Na real, é justamente o contrário, é preciso muito esforço para sermos apenas medianos. E a maioria de nossas empreitadas serão abandonadas ao longo da vida. E novamente, isso não é um problema.

Durante muito tempo, papai se culpou por deixar tanta coisa incompleta. Mas o que eu demorei a entender é que, para mim, aquilo já tinha sido concluído. Mesmo sem saber, por algum motivo, segui minha onda e deixei as outras para trás.

Por exemplo, em determinada fase da vida, lá pros 16, 17 anos entrei numas de fazer capoeira. Nunca fui bom. Na verdade, eu era de longe o maior desastre daquele grupo. Possivelmente, o pior pretenso capoeirista que o Brasil já viu. Acreditava que com determinação e esforço um dia aprenderia a gingar. Era o plano, mas algum tempo passou e meu interesse por capoeira também. Simplesmente nunca fui bom.

Teve a fase em que inventei ser fotógrafo de rock. Foram muitos shows massas e de graça mas, uma vez mais, desisti antes de ficar bom.

Também tive algumas bandas, a Homer and The Duffs, a Provos e a The Sexual Star Stuff of The Savages (essa última ainda existente em meus delírios e planos). E o único objetivo dessas bandas todas era tocar no Hangar 110, o nosso CBGB. As bandas acabaram, o Hangar anunciou essa semana que irá fechar as portas. Nunca tocamos lá.

Em compensação, fizemos um lendário show no igualmente lendário, Vila Rock. Um pico onde na entrada se lia: “Pais, tragam seus filhos para tocar”. É, a curadoria das bandas era feita por uma velhinha cujo rigoroso processo seletivo consistia em escrever o nome da banda em uma data livre. Esse foi o auge de minha carreira como rock star.

Já tentei ser punk, hippie, vegano, budista, ateu, junkie, ator, anarquista, esportista, revolucionário, poeta beat, e mais uma porção de coisa. Uma interpretação possível, é a de que fracassei e desisti de tudo. Agora, outra interpretação, e a que prefiro, é:

mesmo não me tornando músico, aprendi uns 6 acordes e hoje consigo tocar no violão os nossos hits, “Papai é uma rainha”, “Formiguinha, vai pro banho já!” e “Vou comer a barriga da minduca se ela não papar tudinho”, entre outros.
Posso não ter me tornando o Bob Gruen, mas consigo fazer umas fotos legais suas mesmo quando a luz tá uma merda. Tipo na hora do parabéns.
E hoje, quando você só chorava na hora de tirarmos uma foto 3×4 pro seu RG, consegui, em pleno Poupa Tempo, ficar de ponta cabeça em uma parada de mão e te fazer sorrir (assim, foto ficou lindona).

Claro, é importante nos esforçarmos sempre e colocarmos nosso melhor em tudo que nos dá tesão. Dedicação e disciplina são fundamentais, mas reconhecer a importância das derrotas também.

São elas, as derrotas e as desistências, que constroem o mosaico do que somos, para o bem e para o mal. Inclusive, o pai que sou só existe por conta desse balaio de tarefas incompletas.

Nessa crônica mesmo, não estou conseguindo achar o tom, muito menos a conclusão ideal. Não estou feliz com ela, mas é importante não nos envergonharmos de simplesmente abandonar algo antes da…

Amor,
Papai.
03.11.16