14059968_1078282958893249_2022863317_o (1)
Arte: André Bonani

“Tudo passa, dizem. E a experiência vem confirmando que é verdade, minha amorinha. Se me perguntassem há duas semanas, como está sendo sua adaptação na escolinha, eu diria, “O inferno na Terra. Isso nunca vai dar certo. Vou desistir, comprar uma lousa e alfabetizar a pequena aqui em casa mesmo.”
Era uma dor imensa dar as costas ao seu choro e ir embora. Pensei que não fosse aguentar. Até que um belo dia você foi. Sem chorar ou olhar para trás. Exatamente como disseram que iria acontecer: primeiro, deixou de fazer um escândalo. Depois, foi ficando lá, observando, sacando quem era quem, tentando entender. E agora, ignora meus apelos por um mais um beijo de tchau e sai correndo em direção à tia Pri, ao tanque de areia ou à boneca Dori da Oli.

trilha sugerida:

O mesmo aconteceu com as noites sem dormir. Sabe, sonequinha, foi mais de um ano sem dormir. Eu pensei que jamais voltaria a sonhar. Noites e noites perguntando o que tinha feito para merecer aquela tortura. Até que um dia, você dormiu três horas seguidas. Depois, quatro, cinco. Até finalmente só acordar depois do Sol. Hoje, a lembrança desse passado insone soa exagero. Aparentemente, esquecemos. (Talvez por isso casais façam a loucura de ter mais de um filho. Eles esquecem.)

Pois é, tudo passa. Deveria já saber disso há tempos. Convenhamos, foram 30 anos. Sobrevivi infância, adolescência (!!!), frustrações sem fim, fracassos, dramas. Ainda assim, papai precisou de você, essa coisinha de dois anos de idade, para me ensinar o óbvio. O tempo cura. Antes de casar, sara.”

Era essa a crônica da semana, pequena. Quanta sabedoria, quanto aprendizado do papai, né?
Reli o texto cheio de orgulho, pensando, então, ser adulto é assim? Esse é o tal amadurecimento. Finalmente, chegou. Percebi que nada é definitivo. A vida, às vezes, dói, mas passa. Estava confiante. Depois de toda uma vida, até que enfim a iluminação. Sonhava com um futuro mais equilibrado e sereno quando um grito seguido de choro me chamou de volta. No quarto, a imagem que provavelmente não esquecerei tão cedo, sangue saindo pelo seu nariz e você assustada berrando. Você tinha driblado a barreira de travesseiros e caído da cama de cara no chão.

Adeus serenidade. Adeus equilíbrio. Daquele instante até o pronto-socorro tive a certeza de que nada pior poderia ter acontecido. Era grave. Muito grave. Nunca mais seríamos os mesmos. Eu era um pai terrível. O mundo era um lugar terrível. Nada poderia ser pior. Uma maldição. Uma catástrofe. Por fora, segurei as pontas como o papel de pai demanda, (até cantei a musiquinha do peixinho pra te distrair) mas por dentro, a bagunça instalada. A certeza de que não estava preparado para aquilo. Não daria conta.

Então, após exames, a médica nos trouxe o alívio, foi apenas um susto. Estava tudo bem. Você já não chorava. Você até quase me consolava com seu sorriso sonolento.

Na volta para casa, você dormia em paz. E eu te observava pensando, talvez nunca aprenda mesmo. Talvez nunca seja fácil. Mas tudo bem. “Antes de casar, sara”, mesmo que seja mentira.

Amor,
Papai.
19.08.16

Ps meio óbvio: esse ditado, “antes de casar, sara” ou “depois de casar, sara”. Papai desconhece a origem. Não é literal, tá? Só usei pois lembra infância, mas nem gosto muito dele não, tá? 🙂