ilustra andré anarquia
Arte: André Bonani

“Eu não sei o que estou fazendo.” Assim poderia começar toda crônica minha a você, pequena.

Durante os nove meses em que você se preparava dentro da mamãe nós, aqui fora, também nos preparávamos. Curiosamente, em todos esses anos de civilização, ainda não é consenso a melhor forma de trazer à vida, de realizar um parto. Por isso, nos dedicamos tanto a entender esse momento. Foram meses de leituras, debates, estudos. E valeu a pena, fizemos como julgávamos ideal. Essa talvez seja minha última lembrança de saber o que estava fazendo. Como diz um amigo (pai de três), nos preparamos para o vestibular e não para a faculdade.

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Sabe, minha coisinha, ainda lembro o dia em que chegamos em casa pela primeira vez, eu você e a mamãe. Era tudo novo, mágico, etc e tal, mas havia ali um pavor completo também.
E agora, como lidar com essa coisinha?

Na dúvida, decidi adotar o esquema “muito amor e free style”. Pensei decidir de acordo com as situações e bem, numa onda anarquista, meu plano sempre foi não impor nada. Respeitar seus momentos, experiências e decisões. Nos ajudarmos e nunca decidir por você. O plano era também não mentir. Justificar cada escolha. Nunca dizer “porque não” e sempre explicar os porquês todos. Debater as opções e juntos encontrarmos o melhor caminho.

Na teoria soa legal, né? Mas na prática:

-Pequena, por favor, tira o capacete do papai da cabeça?
-Não!!!!!! Eu quero, eu quero, eu quero!!!!
-Eu sei, meu amor, mas o capacete é enorme pra você. Não cabe. E você não vai precisar. Vamos tirar?
-Não!!! Quero capaceteeeeeeeeee!!!
-Tamo atrasado, pequena. Pelo amor de Deus, tira esse capacete?

E as batalhas seguem assim com absolutamente tudo. E as dúvidas também.

De manhã, você quis comer macarrão. Eram 6 da matina. Eu te expliquei que aqui (na Terra?) não comemos macarrão tão cedo. Hoje, comeremos mamãozinho, disse. Você não se convenceu. De fato, eu não sei bem o motivo pra isso. Só sei que é assim. Talvez um nutricionista soubesse explicar. Como eu não soube, foi macarrão de café da manhã.
Você feliz com a boca toda suja de molho e eu angustiado me perguntando, será que acertei nessa? Será que não devia ter enfiado na sua boca o bendito mamão?

Outro dia, você assistia televisão e brincava com a massinha de modelar ao mesmo tempo. Eu sugeri desligarmos a televisão e seguirmos com a massinha. Você eloquentemente argumentou, “nãããããão”. Percebendo que não teria como rebater tão sofisticada posição, tentei me impor, “ok, não desligamos se você arrumar a bagunça que fez com a massinha”.
Você olhou nos meus olhos e desafiadora pegou dois potes de massinha e jogou um para cada lado. Decidi pegar pesado também. Desliguei a tv e disse que não ligaríamos até você pegar a massinha do chão.
E assim, minutos de choro ininterrupto. Uma tortura. Era uma prova de resistência. Tinha que ser forte. E quando já me questionava o sentido daquilo tudo e tentava lembrar como começamos aquele braço de ferro, você veio correndo e mostrou que tinha arrumado a bagunça.

Yeah! Vitória! Que grande educador eu sou, pensei. Mas logo, as dúvidas. Será que é saudável você desistir assim tão fácil? Na primeira dificuldade você cedeu ao opressor (no caso eu). Não seria melhor formar um ser humaninho que não se deixe abater? Quer dizer, se você realmente acredita que é importante massinha pelo chão, não deveria lutar por isso até o fim? E assim, o que era uma “vitória” tornou-se um novo dilema.

Vê que não é nada fácil essa tal educação muito amor e free style?:

-Não, não vamos à padaria! Tá, só entraremos se tiver vazio e sem fila. Tá bom, eu fico na fila, mas nada de doce, hein? Ok, só um docinho porque hoje tá calor(?). Mas é só um! Tá bom, dois mas nada de parquinho. Tá, só no escorrega e vamos embora! Ahhhh, foda-se.

E assim, seguimos, sem eu ter uma puta ideia do que tô fazendo. Tentando acertar e colecionando erros. Ora tentando me impor, ora desistindo. Questionando a todo instante se sou um bom pai ou se estou arruinando tudo. Noto outros pais tão bem resolvidos e confiantes. Será que é difícil assim para todos? Penso nisso enquanto te levo à escolinha. Você com o maldito capacete na cabeça.
A mãe do Pedrinho me vê. Antes que eu possa explicar o motivo do capacete ela diz,

-Ah, não! Sexta-feira é dia de fantasia! Meu deus, eu sempre esqueço!
-Fantasia?
-Toda sexta e toda sexta eu esqueço. Até comprei uma do Capitão América, mas nunca lembro. Não acerto uma.
-Ah, sim, sexta-feira, dia da fantasia. Claro! – eu digo com convicção. E sigo,
-Sabe, lá em casa priorizamos muito essa coisa do lúdico. Passamos a semana inteira bolando a fantasia. Essa de ciclista foi ideia dela, mas eu adorei. Ficou legal, né? Acho importante incentivarmos a criatividade nos pequenos, né?
-É, verdade. Eu sou tão relapsa. É tão difícil, não sei como vocês conseguem…
-Ah, não seja tão dura consigo mesma. Fazemos o que dá…

Amor,
Papai.
27.10.16

Ps: lembrando que é tudo ficção sempre e não estou promovendo nenhum debate sobre como educar filhos nem nada assim. Apenas uma crônica ficcional, ok? 🙂